O empresário que aprendeu a viver antes de aprender a vencer

Aos 33 anos, Fernando Gabas sobreviveu a um AVC em um hospital nos Estados Unidos, longe da família, com dois filhos pequenos e iniciando um novo negócio. Pouco tempo depois, em um outro centro cirúrgico, ajoelhado no chão, ele entendeu que construir impérios sem construir a si mesmo não é vitória nem sobrevivência. Hoje, à frente de cinco negócios nas áreas de educação, tecnologia, sustentabilidade, imigração e alimentação saudável, Fernando carrega uma filosofia que transcende qualquer resultado financeiro: a de que a qualidade da sua vida é a qualidade do estado emocional que você comumente experiencia.
Existe uma cena que Fernando Gabas não esquece. Janeiro de 2013, centro cirúrgico nos Estados Unidos. Sua esposa, Milena, acabara de dar à luz Pedro, o terceiro filho. Exatamente um ano antes, no mesmo dia 11 de janeiro, Fernando tinha chegado àquele mesmo hospital com uma dor de cabeça insuportável e recebido um diagnóstico que poucos sobrevivem para contar: ruptura de aneurisma cerebral, um AVC hemorrágico. Enquanto segurava o filho recém-nascido, ajoelhou-se no chão e sentiu sua vida inteira passar diante dos olhos: pais, professores, amigos, sócios, momentos de glória e de total falência. Ali, ele não viu um empresário. Viu um ser humano interconectado a tudo e a todos que o haviam formado, que tudo que ele tinha conquistado e se tornado foi fruto da interação com milhares de outras pessoas. E entendeu que ninguém vence sozinho.

O DNA empreendedor de Catanduva
Fernando nasceu em Ribeirão Preto, mas foi em Catanduva, no interior paulista, que sua identidade se formou. Filho de um médico e de uma professora de matemática de uma escola pública onde Fernando estudou a maior parte de sua vida. Cresceu num lar onde trabalho e estudo eram valores inegociáveis. Enquanto os livros deixavam lacunas, ele as preencheu por conta própria: aprendeu inglês, depois francês, depois espanhol, e estudou além do que qualquer curso oferecia. Passou no ITA ainda no colegial, mas optou por Administração de Empresas em São Paulo. Tinha uma certeza desde criança: queria construir coisas, empreender. Pai médico, tio médico, irmão mais velho médico. Mas Fernando sempre enxergou outro caminho.
“Desde pequeno eu lia livros e via pessoas que saíram do nada e construíram verdadeiros impérios. Sempre fui esse lado mais ousado, gosto de arriscar, de voar sonhos maiores.”

De estagiário a dono: a ascensão que ninguém esperava
No segundo ano de faculdade, Fernando começou a estagiar numa importadora de equipamentos de fitness. Pouco tempo depois do início do estágio, ainda com 19 anos e inglês fluente, foi direto para a área de importação. Em poucos meses, estava viajando para uma grande feira de esportes em Atlanta. Não tinha passaporte, nem visto e nem terno. O dono da empresa pagou tudo e apostou no moleque.
A aposta valeu. Fernando cresceu dentro da empresa com uma velocidade que assustava: assumiu a área internacional, depois a comercial. Com 20 anos, em plena virada do câmbio no primeiro governo Lula, as vendas explodiram. Ele ganhou 200 mil dólares em comissão, o equivalente a mais de 2 milhões de reais hoje, se contarmos a inflação em dólar do período. Tinha casa em Alphaville, Mercedes e uma vida que muitos nunca alcançam. Mas o sonho de ser dono do seu próprio negócio era mais forte.
Quando propôs ao patrão uma participação societária, generosa, criativa e sem mexer no lucro já existente, ouviu um não. Pediu demissão. E foi quando algo inesperado aconteceu: franqueados, revendedores e fornecedores internacionais vieram atrás dele. A resposta de todos foi a mesma: com você, vamos juntos.
“Eu era muito novo, tinha 22 para 23 anos. Mas eu não sabia que isso era improvável, e saí fazendo.”

A Reebok, o 11 de setembro e a arte de confiar no processo
Em 2001, Fernando conseguiu o licenciamento oficial da Reebok para equipamentos de fitness no Brasil, por um período de testes de 1 ano, com autorização para abertura de lojas Reebok Fitness Equipment Store. Em setembro daquele ano, estava pronto para o lançamento numa grande feira em São Paulo. O diretor de licensing da Reebok viria dos Estados Unidos para decidir se mantinha a parceria com aquele jovem de 23 anos ou migrava para o concorrente mais estabelecido.
O voo saía de Boston com escala em Nova York no dia 11 de setembro de 2001. O diretor nunca embarcou. Os atentados às Torres Gêmeas fecharam todos os aeroportos. Fernando acabou renovando a licença por mais 5 anos, renováveis. A empresa cresceu, chegou a mais de 70 pontos de venda no Brasil e Argentina, e foi vendida em 2009.
No entanto, para chegar nesse porte, enfrentou desafios gigantescos logo no começo da operação. “Éramos inexperientes e escolhemos uma trading para importar que tinha problemas. Perdemos mais de US$ 1 milhão a custo em mercadorias que foram apreendidas por culpa dessa trading. Isso foi logo em 2002, eu tinha acabado de me casar e nem dinheiro para pagar as últimas parcelas da festa de casamento eu tinha.” Cartões estourados, casa vendida, sem dinheiro nem para pagar o pedágio de R$ 5,00 para visitar o pai que estava numa cidade vizinha. Naquela noite, Fernando e Milena abriram um caderno e escreveram tudo que queriam. Meses depois, cada item tinha se realizado, por permutas, convites de fornecedores e coincidências que ele hoje chama de flow com a vida.
“Quando você está realmente dedicado, focado, e quer com toda a sua força, parece que a vida dá um jeito de encaixar. Você não sabe como, mas as coisas acontecem.”

Presença, gratidão e a filosofia que nasceu de uma cirurgia
Após vender a Reebok Fitness em 2009, Fernando mudou-se para os Estados Unidos em 2010. O que era para ser um período sabático acabou se tornando mais um grande projeto. Associou-se a uma das maiores marcas de ensino de idiomas e assumiu toda a área de expansão internacional e negócios online, que estavam começando. O que era para ser um ano de descanso e estudo virou um período intenso: viagens constantes para a Ásia e a América Latina, e descuido com sua saúde física e emocional.
Em janeiro de 2012, morando nos Estados Unidos, Fernando chegou ao hospital com uma dor de cabeça insuportável. O diagnóstico foi ruptura de aneurisma cerebral, um AVC, mais comumente conhecido como derrame. Duas opções cirúrgicas, risco de sequelas graves, 50% de chance de um segundo evento até o final do ano. Antes de entrar para o centro cirúrgico, ditou para Milena, em lágrimas, todos os investimentos, contas e contatos que o casal possuía e que ficavam sob sua gestão. Por precaução. Por amor.
A cirurgia deu certo. A recuperação foi longa, marcada por depressão e síndrome do pânico. Mas foi também o início de uma transformação radical. Fernando começou a estudar o que nunca tinha estudado: a si mesmo. Fez cursos de autoconhecimento, meditação e observação interior. Perdeu 18 quilos em quatro meses. Tornou-se atleta. E chegou a uma conclusão que hoje é seu principal legado filosófico.
“A qualidade do estado emocional que você comumente experiencia é a qualidade da sua vida. E esse estado emocional é fruto da sua fisiologia e padrão de pensamentos que você cultiva. Se você vive experienciando gratidão, admiração, amor, sua vida será um presente.”

O filho que nasceu um ano depois do renascimento
A família de Fernando é o fio condutor de tudo. Namorando desde os 14 anos com Milena, num relacionamento que atravessou vestibular, faculdade, falência, mudança de país e cirurgia cerebral, eles têm três filhos. Maria Clara, a mais velha, estuda em Boston. O do meio, de 19 anos, estuda na UCLA, em Los Angeles. E Pedro, o caçula de 13 anos, nasceu exatamente um ano depois da cirurgia de Fernando, no mesmo dia, nas mesmas circunstâncias em que o pai quase morreu.
Naquele centro cirúrgico, ajoelhado ao lado do filho recém-nascido, Fernando viu sua vida inteira passar diante dos olhos. Cada pessoa que o havia tocado. Cada conexão que o havia formado. E compreendeu, de forma visceral, que ninguém é self-made.
“O que seria de mim sem meus pais, sem meus amigos, sem meus professores, sem meus filhos, sem minha parceira, sem todas as pessoas que vivem na minha vida? Nada. A beleza da vida é você reconhecer isso e ser agradecido.”

Educação, tecnologia e sustentabilidade: o legado em escala
Depois de voltar ao Brasil em 2013, Fernando abriu uma holding pessoal e foi investindo em negócios com propósito. Hoje são cinco frentes ativas: um programa de educação socioemocional com mais de 3,5 milhões de crianças impactadas desde 2014; o ecossistema de imigração SG Global Group, com a operação Morareua entre as top 3 da América Latina; um negócio de alimentação saudável em aeroportos; uma empresa de tecnologia com inteligência artificial; e uma empresa de sustentabilidade que desenvolve materiais biodegradáveis e nanocelulose a partir de fibras naturais. Fernando vê a inteligência artificial como a maior alavanca de transformação da história, mas também como um risco real se usada por consciências egoístas. Defende que dominar ferramentas de IA deveria ser prioridade número um de toda escola, executivo e empresário.
“Aprende a usar com maestria todas as ferramentas de inteligência artificial. Você pode ter um exército de milhões de PhDs disponíveis para trabalhar para você, por 20 dólares por mês.”

Fluir, não forçar: a visão de quem sobreviveu para entender
Fernando Gabas não fala de futuro com a ansiedade de quem precisa provar algo. Fala com a serenidade de quem já esteve muito perto do fim e escolheu, conscientemente, como quer viver o que restou. Seus planos são concretos: expandir a plataforma digital de educação, escalar a tecnologia de sustentabilidade e contribuir para um modelo de IA mais ético. Mas o que move esses planos não é ambição de acúmulo. É propósito. Para os jovens que começam agora, seu conselho é direto: pare de brigar com a realidade, aprenda a estar presente e construa negócios que resolvam problemas reais.
“Dá o mesmo trabalho você tocar um negócio de um bilhão e um de um milhão. Na verdade, é mais fácil um bilhão. Sonhe alto, comece pequeno, foque muito, e acima de tudo, tenha um propósito que te faz se sentir em paz.”
Quando o legado se torna presença, não conquista
Fernando Gabas construiu empresas, atravessou falências, sobreviveu a uma cirurgia cerebral e criou filhos em três países. Mas o que ele mais quer deixar para as próximas gerações não é nenhum desses ativos. É uma forma de ver. Uma percepção de que a vida tem um plano, que ninguém é separado de ninguém, e que o verdadeiro sucesso é acordar todos os dias em paz com o que você faz e com quem você é. Para a Revista Prospere Legado, sua história é um convite a todo empreendedor: antes de construir um império, construa-se.