Da roça à referência em gestão e liderança industrial no Brasil

Criado em uma lavoura de café no sul de Minas, Mário Marques Júnior construiu uma carreira em grandes indústrias, tornou-se referência em liderança industrial e hoje ajuda empresas de diferentes segmentos a alcançarem resultados por meio da gestão, da inovação e do desenvolvimento de pessoas.

Quando deixou a pequena Coqueiral, no sul de Minas Gerais, aos 18 anos, Mário Marques Júnior carregava apenas uma mochila com duas camisas, duas calças, uma botina e um sonho.

Há pessoas que herdam empresas. Outras herdam terras. Mário Marques Júnior herdou algo muito mais valioso: a dignidade do trabalho.

Criado em uma pequena lavoura de café no sul de Minas Gerais, aprendeu ainda criança que acordar cedo não era um sacrifício, mas parte da vida. Décadas depois, sentado em salas de reunião de grandes empresas, percebeu que as maiores decisões da sua carreira continuavam sendo guiadas pelas mesmas lições aprendidas entre os pés de café.

Hoje, reconhecido como referência em liderança industrial, Marão leva sua experiência para empresas de diferentes segmentos por meio da gestão, da inovação e do desenvolvimento de pessoas. Apesar da trajetória construída em grandes organizações, continua acreditando na mesma ideia que aprendeu ainda criança na lavoura: resultados extraordinários sempre começam pelas pessoas.

Infância na lavoura de café

Filho único de Mário e Cici, Marão cresceu na zona rural de Coqueiral, no sul de Minas Gerais, em meio a uma lavoura de café. Aos oito anos já vendia tomates pelas ruas para ganhar o próprio dinheiro. Quando voltava da escola, almoçava rapidamente e seguia de bicicleta para ajudar os pais na colheita. Capinar, adubar, pulverizar, colher e carregar sacas faziam parte da rotina muito antes da primeira carteira assinada.

Foi ali que desenvolveu valores que levaria para toda a vida. O trabalho ensinou disciplina, responsabilidade e respeito pelas pessoas, princípios que mais tarde passariam a orientar sua forma de liderar equipes. Décadas depois, resumiria essa lição numa convicção que sustentaria toda a carreira: empresas crescem com máquinas, processos e estratégia, mas são as pessoas que sustentam resultados duradouros.

Mesmo depois de ocupar cargos estratégicos em grandes empresas, continua atribuindo à infância na roça a formação de seu caráter.

“Respeito e resiliência. Esses são os dois princípios que sustentam toda a minha trajetória.”

A mudança para Divinópolis

Aos 18 anos, Marão tomou a decisão que mudaria sua história. Depois de conhecer Débora durante um casamento, recebeu um convite para trabalhar em Divinópolis. Enquanto a mãe resistia à ideia de vê-lo partir, o pai o incentivou a aproveitar a oportunidade.

A despedida ficou marcada por um gesto da avó. Sem dinheiro sequer para a passagem, recebeu dela R$ 50 emprestados. Na manhã da viagem, ela colocou discretamente mais R$ 50 em seu bolso e disse:

“Se der errado, não tenha orgulho de voltar pra trás. Aqui você tem uma família inteira que te ama, que vai estar de braços abertos.”

A frase o acompanharia por muitos anos.

Seu primeiro trabalho foi descarregando caminhões de carvão em uma empresa terceirizada que prestava serviços para a Gerdau. Morando em uma república, percebeu rapidamente que o salário não era suficiente para pagar as despesas e chegou a pensar em voltar para Coqueiral.

Foi novamente a família que mudou o rumo da história. O sogro quitou a dívida que ele tinha com os colegas de casa e o levou para morar com sua família. Um ano e dois meses depois, Marão e Débora se casavam.

Hoje, ele reconhece que aquela mudança representou muito mais do que uma oportunidade de trabalho. Foi o momento em que decidiu acreditar que poderia construir uma vida diferente.

“Se desse errado, eu podia voltar. Mas eu decidi fazer dar certo.”

Do ensino médio ao mestrado

Nos primeiros anos em Divinópolis, Marão via oportunidades escaparem porque não havia concluído o ensino médio. Foi Débora quem o incentivou a voltar a estudar, decisão que mudaria definitivamente sua trajetória.

Depois de concluir os estudos, ingressou no curso técnico em Eletromecânica do CEFET, conciliando trabalho noturno e aulas durante o dia. A dedicação abriu portas para um estágio técnico na VLI e deu início a uma sequência de formações que incluiu um segundo curso técnico, Engenharia Mecânica, especializações, MBA e, anos depois, o mestrado em Automação, também pelo CEFET.

Mais do que acumular diplomas, os estudos ampliaram sua confiança para assumir desafios cada vez maiores. Até hoje, aos 44 anos, continua estudando, convencido de que aprender é uma decisão permanente.

“O estudo não mudou apenas a minha carreira. Mudou a forma como eu passei a enxergar a minha própria capacidade.”

O ano do recomeço

Depois de doze anos na Gerdau, Marão acreditava que iniciaria um novo capítulo da carreira. Foi aprovado para lecionar em um curso técnico do Senai, em Varginha, e pediu demissão da empresa.

Antes de assumir a vaga, porém, o sogro sofreu um AVC e permaneceu internado por cerca de 60 dias. Diante da situação, Marão decidiu abrir mão da oportunidade para permanecer ao lado da família da esposa.

A escolha teve um preço alto. Sem o emprego antigo e sem iniciar o novo, ficou desempregado.

Pela primeira vez desde que havia deixado Coqueiral, Marão olhou para trás e imaginou que talvez sua história tivesse chegado ao fim antes mesmo de realmente começar. Voltou para a lavoura onde tudo havia começado. Enquanto colhia café, perguntava a si mesmo se todo o esforço para estudar, trabalhar e construir uma carreira havia sido em vão.

Nos meses seguintes, voltou à lavoura de café do pai e tentou empreender vendendo café torrado de porta em porta. O negócio não prosperou. O período foi marcado por uma depressão.

Foi então que recebeu um telefonema de um ex-colega da Gerdau indicando seu nome para uma vaga de supervisor de produção na Farmax. Sem experiência em gestão, aceitou o desafio.

Os primeiros dias foram difíceis. Precisou conquistar uma equipe que não o conhecia e aprender a liderar enquanto exercia a função. Ao longo de sete anos, porém, cresceu dentro da empresa, passando da supervisão do turno da noite para a coordenação industrial de todas as unidades.

Ao longo desse período, liderou a reestruturação de equipes, fortaleceu a cultura de segurança, implantou práticas de melhoria contínua, desenvolveu novos líderes e participou ativamente da profissionalização da gestão industrial. Áreas historicamente marcadas por baixa produtividade e desafios de clima organizacional passaram a ser reconhecidas pelo alto desempenho, pelo engajamento das equipes e pelos recordes de produção.

Também esteve à frente de projetos voltados ao aumento da produtividade, padronização de processos, gestão por indicadores, redução de perdas operacionais e formação de sucessores, consolidando uma cultura em que pessoas e resultados caminham lado a lado.

Um dos capítulos mais importantes dessa jornada foi sua participação no processo de M&A (Mergers & Acquisitions) da companhia. Marão integrou a equipe que conduziu a transição da Farmax de uma gestão familiar para uma estrutura administrada por um fundo de investimentos, contribuindo para a profissionalização da gestão industrial e para a consolidação de processos que sustentaram um ciclo de crescimento acelerado. Durante esse período, a empresa triplicou seu faturamento, consolidando-se como uma das principais referências do setor.

Foi também na Farmax que encontrou uma de suas maiores referências profissionais. Observando de perto a forma de liderar de Ronaldo Ribeiro, então CEO da empresa e atualmente presidente da Caloi, consolidou a filosofia que passaria a nortear toda a sua carreira: resultados consistentes só acontecem quando as pessoas também se desenvolvem. Mais do que acompanhar decisões estratégicas, teve a oportunidade de vivenciar uma liderança baseada na escuta, na confiança, na proximidade e no desenvolvimento humano. Essa convivência reforçou a convicção de que um líder não é lembrado apenas pelos resultados que entrega, mas principalmente pelas pessoas que ajuda a crescer.

Foi na Farmax que Marão consolidou definitivamente sua própria identidade como líder: alguém que acredita que o papel do gestor não é controlar pessoas, mas desenvolver talentos, formar sucessores e criar ambientes onde as equipes tenham orgulho de trabalhar. Essa visão transformou operadores em líderes, fortaleceu equipes e demonstrou que resultados sustentáveis são consequência de uma cultura baseada em confiança, respeito, disciplina e desenvolvimento humano.

Ao final daqueles sete anos, percebeu que seu maior legado não estava apenas nos indicadores que ajudou a melhorar ou nos projetos estratégicos dos quais participou, mas nas pessoas que desenvolveu. Muitos profissionais que cresceram ao seu lado hoje ocupam posições de liderança em diferentes empresas, levando adiante a mesma filosofia de gestão que aprenderam durante essa caminhada.

“As empresas podem mudar de donos, de estratégia e de tecnologia. Mas são as pessoas que garantem que qualquer transformação aconteça de forma sustentável. Desenvolver líderes sempre foi, e sempre será, o investimento mais importante que uma organização pode fazer.”

“Achei que não ia conseguir trabalhar em lugar nenhum mais.”

Da indústria para a inovação

Depois da Farmax, Marão foi convidado para novos desafios.

Na Bold Snacks, participou da reestruturação da operação industrial e ajudou a elevar a produção diária de cerca de 150 mil para 280 mil barras de proteína em apenas seis meses.

O maior desafio de sua carreira veio ao assumir a Diretoria Industrial da Diviníssima, onde liderou um ambicioso projeto de turnaround industrial. Mais do que transformar processos, precisou resgatar a confiança das pessoas e mostrar que resultados sustentáveis nascem quando líderes desenvolvem equipes. Ao longo de dois anos, a produção dobrou, a eficiência operacional evoluiu significativamente, desperdícios foram reduzidos e a empresa voltou a operar com uma cultura baseada em disciplina, inovação e protagonismo das pessoas.

“Mais do que recuperar indicadores, o trabalho consistiu em recuperar a confiança das pessoas. Porque processos podem ser redesenhados rapidamente, mas equipes só entregam resultados extraordinários quando voltam a acreditar no propósito e na liderança.”

Foi durante esse período que surgiu uma das ideias mais curiosas de sua trajetória. Enquanto cursava uma pós-graduação na Fundação Dom Cabral, transformou um desafio vivido dentro de casa em seu trabalho de conclusão de curso. Criou um aplicativo que condicionava o pagamento da mesada do filho ao cumprimento de tarefas e metas.

O projeto venceu o Demoday da Fundação Dom Cabral e, posteriormente, o Divinópolis Summit, principal evento de inovação de Minas Gerais.

Para Marão, a experiência reforçou uma convicção construída ao longo da carreira: inovação não depende apenas de tecnologia. Ela nasce da capacidade de compreender problemas reais e encontrar soluções simples, úteis e capazes de melhorar a vida das pessoas.

“A tecnologia transforma processos. São as pessoas que transformam negócios.”

Consultor e palestrante

Depois de anos liderando operações industriais, Marão passou a compartilhar sua experiência como consultor.

Hoje atua em projetos de reestruturação empresarial, automação industrial e desenvolvimento de lideranças, ajudando empresas de diferentes segmentos a melhorar resultados sem perder de vista aquilo que considera seu maior patrimônio: as pessoas.

Também integra o ecossistema de inovação de Divinópolis, acompanhando o desenvolvimento de seis startups, três delas já em operação.

As palestras o levam a diferentes regiões do país e a instituições como CEFET, Senai e Fundação Dom Cabral, onde sua trajetória passou a ser apresentada como exemplo de transformação profissional.

Mesmo conciliando consultorias, direção industrial e novos projetos, afirma que não pretende desacelerar. Quer continuar formando líderes, apoiando empresas e compartilhando os aprendizados acumulados ao longo da carreira.

“Sucesso pra mim é deixar o meu nome não ser esquecido nos lugares onde eu passei de forma positiva.”

A família

Ao olhar para a própria trajetória, Marão não tem dúvidas de que nenhuma conquista profissional teria sido possível sem o apoio da família.

Débora, sua esposa há 26 anos, esteve ao seu lado em alguns dos momentos mais decisivos da vida. Foi ela quem o incentivou a concluir o ensino médio quando ele acreditava que já era tarde para voltar a estudar. Também permaneceu ao seu lado durante o período em que precisou recomeçar a carreira e enfrentar a depressão.

O casal construiu uma família ao lado dos filhos, Thaís, de 20 anos, e Samuel, de 15. Mesmo com uma rotina intensa de consultorias, viagens e palestras, Marão faz questão de preservar o tempo ao lado da esposa e dos filhos.

Ao ver os filhos construindo seus próprios caminhos, não deseja que sigam necessariamente sua profissão. Seu maior desejo é que encontrem propósito no que fizerem e levem consigo os valores que aprenderam dentro de casa, assim como ele levou os ensinamentos da lavoura para a indústria.

“Tudo o que conquistei começou porque alguém acreditou em mim antes mesmo de eu acreditar em mim.”

Encerramento

Da lavoura de café às salas de reunião de grandes empresas, Marão construiu uma trajetória marcada por trabalho, estudo e resiliência.

Ao longo de mais de duas décadas na indústria, liderou equipes, participou da transformação de empresas e ajudou a desenvolver profissionais que hoje ocupam posições de destaque. Ainda assim, acredita que seu maior legado não está nos cargos que ocupou, mas nas pessoas que ajudou a crescer.

Por isso, segue viajando pelo país para compartilhar conhecimento e incentivar novos líderes a nunca deixarem de aprender. Ele próprio, aos 44 anos, continua conciliando a rotina de trabalho com o mestrado.

Aquele jovem que deixou Coqueiral levando apenas uma mochila, duas camisas, duas calças, uma botina e um sonho encontrou muito mais do que uma profissão. Encontrou uma missão: mostrar que a origem pode ensinar valores, mas jamais limitar o destino.

No fim das contas, Marão nunca deixou a roça.Apenas trocou os cafezais pelas fábricas.

Porque continua fazendo exatamente o mesmo trabalho: cultivar pessoas.

@themarao