A fotógrafa que transformou a câmera em instrumento de cura, autoestima e reconexão

Em 2024, o estúdio de Suzi Pires atendeu cerca de 300 gestantes em São Paulo, o maior faturamento de sua história. Anos antes, eram 25. Mas esse número carrega uma história que vai além do crescimento: foi justamente naquele período de baixa demanda que Suzi teve sua virada. Entendeu que não dava para ser o que não era, abandonou o que todo mundo fazia e desenvolveu seus próprios looks atemporais para gestantes. Foi assim que encontrou sua tribo. Suzi não vende fotografia. Ela cria experiências que ajudam mulheres a se reconectarem consigo mesmas.

A menina que criava mundos onde não havia brinquedos

Suzi nasceu em Santo André, no Grande ABC paulista, filha de pais separados e criada pela mãe, que era muito jovem e precisava trabalhar para manter a casa. Desde cedo, a solidão foi companheira de jornada, e ela aprendeu a transformar o que tinha à disposição em matéria-prima para a imaginação. Cortava roupinhas para fazer bonecas, inventava personagens, enchia o tanque de casa e, na própria cabeça, aquilo virava uma piscina.

Dos seis aos quatorze anos viveu na praia, numa liberdade que marcou sua forma de enxergar o mundo. Quando voltou para São Paulo, já trazia consigo uma habilidade rara: a capacidade de enxergar possibilidade onde outros viam apenas limitação. Aos dezesseis anos, entrou como estagiária em uma multinacional. Para quem veio de onde ela veio, aquilo tinha um peso imenso: a prova de que ela era capaz.

A faculdade de Administração veio depois, conquistada com bolsa do ENEM, fruto de um ano inteiro de dedicação. E foi no penúltimo ano do curso, numa empresa de impressão de álbuns fotográficos, que cruzou pela primeira vez com o universo que mudaria tudo.

“Como a gente não tinha brinquedos, não tinha muitas condições, eu criava meus próprios mundos. Talvez por isso minha imaginação sempre foi tão aflorada.”

Da câmera esquecida ao estúdio no Jardim Paulista

Quando um amigo anunciou uma viagem para Nova York, Suzi tinha dinheiro guardado e o desejo de aprender a fotografar. Sem sérias pretensões, pediu que ele trouxesse uma câmera fotográfica. O equipamento chegou, mas ficou quase um ano guardado, sem uso. Até que uma amiga engravidou e, sabendo da vontade de Suzi, pediu que a fotografasse. Foi ali que ela decidiu que queria ser fotógrafa.

Para se fazer conhecida, Suzi traçou uma estratégia simples e ousada: vender ensaios a preços baixos para ganhar visibilidade e converter aqueles clientes em trabalhos maiores. Divulgou seus ensaios em grupos de descontos por R$ 30, R$ 40. Pegava ônibus, chegava ao Parque do Ibirapuera às sete da manhã com uma bolsa emprestada, câmera, maquiagem e disposição. Foram quase seis meses assim, um ensaio atrás do outro. A estratégia funcionou: quem fazia um ensaio voltava para contratar casamentos e eventos, e foi exatamente aí que o negócio começou a tomar forma.

Em 2012, fotografando um casamento, conheceu a gerente de um restaurante famoso de São Paulo, que ficou impressionada com a qualidade do seu trabalho e passou a indicá-la para noivas. Durante anos, a agenda de casamentos de Suzi ficou cheia por causa dela. Depois veio um convite para fotografar um editorial da revista Caras. Sem cachê, mas com visão, ela aceitou. No final do dia, fotografou um prato de comida que o fotógrafo oficial recusou fazer. A foto foi publicada. O nome de Suzi apareceu na lombada da revista, quase escondido, mas o suficiente para mudar a forma como o mercado a enxergava.

Em 2014, tomou uma decisão que muitos consideravam loucura: queria um estúdio numa região valorizada de São Paulo, perto das melhores maternidades da cidade. Um dia encontrou no Facebook uma fotógrafa procurando alguém para dividir os custos de um espaço no Jardim Paulista, um estúdio de apenas 30 metros quadrados, exatamente onde ela queria estar. Depois de quase um ano dividindo o espaço, a colega decidiu sair. Suzi não hesitou: perguntou quanto custaria ficar com tudo e assumiu o estúdio sozinha.

“Todo mundo dizia que era loucura. Mas eu já estava acostumada a ouvir isso.”

A quebra de 2017 e a virada que mudou o jogo

Em 2017, Suzi quebrou. Não por falta de talento ou de clientes, mas por não ter percebido a tempo uma mudança silenciosa no mercado. Enquanto o Instagram dominava a comunicação visual, ela continuava investindo no Facebook. Perdeu o timing. E aquilo teve um custo alto, não apenas financeiro, mas emocional.

Recomeçar do zero no Instagram não foi simples. O estilo que dominava a plataforma naquele momento privilegiava cenários fantasiosos, objetos decorativos coloridos e composições carregadas, uma estética que não tinha nada a ver com o que Suzi acreditava. Ela sempre preferiu o oposto: criou sua própria luz, que se tornou parte da sua marca pessoal, com roupas clássicas e gestantes produzidas com elegância. Em vez de se adaptar ao que o mercado pedia, ela escolheu um caminho mais difícil e mais honesto: aprender a comunicar melhor quem ela era e para quem queria falar. Quando encontrou esse equilíbrio, as pessoas certas começaram a aparecer.

Em 2019, antes da pandemia, decidiu concorrer a um prêmio internacional de fotografia. Organizou um ensaio no estúdio, cuidou de cada detalhe da produção e inscreveu o trabalho. A premiação veio. Meses depois, quando a pandemia fechou o mundo e ela esperava o pior para o estúdio, aconteceu o oposto. Em vez de se distanciar das clientes, aproximou-se. Passou a compartilhar textos, reflexões, versículos, uma presença humana e constante nos momentos de maior incerteza. Aquelas mulheres não eram mais apenas clientes. Eram uma comunidade que ela havia construído sem perceber, e que respondeu com lealdade. O faturamento do estúdio dobrou.

“A partir do momento que entendi para quem eu queria falar, comecei a atrair as pessoas certas.”

Verdade, acolhimento e integridade como pilares inegociáveis

Suzi não separa seus valores pessoais dos valores do estúdio. Para ela, não existe linha entre a mulher e a empresária, entre a fotógrafa e a pessoa que acredita que sensibilidade humana é o futuro dos negócios. Em um mercado que frequentemente prioriza promessas vazias e pressão desnecessária, ela construiu uma reputação baseada em três palavras que repete com convicção: verdade, acolhimento e integridade.

A fé esteve presente desde a infância. A mãe de Suzi, sem estudo formal, escolheu a leitura como ferramenta de formação. Incentivava a filha a ler a Bíblia e explicar o que havia entendido. Havia um livro específico, o Meu Livro de Histórias Bíblicas, que Suzi precisou estudar cinco vezes, porque se não soubesse responder alguma pergunta sobre a história, recomeçava do início. Foi ali, segundo ela, que nasceu seu lado estudioso.

E foi essa mesma fé que, nos momentos mais difíceis da vida adulta, sustentou cada passo seguinte. Nos meses em que o aluguel pesava e as contas apertavam, Suzi recorda de clientes que reapareciam do nada querendo fechar álbuns, o que ela chama de maná do dia, a certeza silenciosa de que seu Deus Jeová está cuidando de tudo.

“Eu acredito em verdade. Eu acredito em acolhimento. Eu acredito em integridade. E acredito que o resultado financeiro é consequência de um propósito bem vivido.”

O deserto emocional que se tornou fonte de reconstrução

Em 2025, Suzi chegou ao que deveria ser o melhor ano de sua vida. O estúdio havia registrado o maior faturamento da história, as campanhas estavam consolidadas e o futuro parecia finalmente recompensador. Foi justamente nesse momento que passou por um divórcio doloroso. O chão se abriu. Ela perdeu o controle emocional, a clareza e a identidade. Foi o período mais difícil que enfrentou.

Mas havia pessoas que dependiam dela, e parar não era uma opção. Foi na terapia que encontrou ferramentas para atravessar o que ela chama de seu deserto emocional. Aprendeu a separar suas versões: a mulher, a empresária, a amiga. Passou a usar um anel como ritual de entrada no estúdio, um gesto simbólico e necessário de que, naquele espaço, precisava ser inteira.

Ela se lembra que, num momento de vulnerabilidade, decidiu gravar um vídeo para as seguidoras pedindo desculpas pela ausência. Quando publicou, algo inesperado aconteceu: dezenas de clientes começaram espontaneamente a repostar fotos antigas que Suzi havia feito delas ao longo dos anos. Uma puxou a outra, numa corrente silenciosa de afeto que ela não esperava. Foi nesse processo de reconstrução que ela decidiu fazer uma pausa para se reencontrar e entender seu propósito. Após uma viagem à Europa, voltou decidida a se recompor e reescrever sua história.

“Hoje eu entendo que meu trabalho nunca foi apenas fotografia. Eu entrego memória afetiva, acolhimento, experiência e conexão humana.”

Campanhas que nascem da dor e se tornam movimento

A Campanha Mães nasceu em 2019 de uma observação que incomodava Suzi há algum tempo. Nos ensaios de Dia das Mães, as mulheres invariavelmente ficavam em segundo plano: descabeladas, com roupas simples, existindo apenas como suporte para a foto do filho. A mãe era coadjuvante na própria história. Suzi decidiu inverter esse jogo. Criou um ensaio em que a mãe é a protagonista, produzida, bonita e poderosa, com o bebê como complemento, não como estrela.

Para testar a ideia, fez um post pedindo indicações de mães para fotografar. O resultado foi revelador: todas mandavam fotos dos filhos. Nenhuma mandava foto de si mesma. Quando Suzi respondia “Não. Eu quero você”, aquilo provocava um estranhamento genuíno. As mulheres simplesmente não estavam acostumadas a ser o centro. Hoje a Campanha Mães é o maior faturamento do estúdio, funciona praticamente no orgânico e reúne mulheres que participam desde a primeira edição. Algumas estão presentes desde o ensaio de gestante e voltam todos os anos, numa fidelidade que vai muito além de uma sessão fotográfica.

Depois do sucesso da Campanha Mães e inspirada em sua própria história de reconstrução, Suzi decidiu lançar a Campanha Identidade. Ao atravessar seu deserto emocional, percebeu que havia perdido sua própria identidade, e que essa era uma dor silenciosa compartilhada por muitas mulheres. Em 2026, fez seu próprio ensaio e publicou as fotos. A resposta foi imediata: mulheres que se identificaram com a história de Suzi e perceberam que também viviam essa mesma busca por se reencontrar.

“Quando passei pelo meu deserto emocional, eu senti que tinha perdido minha identidade. E quando comecei meu processo de reconstrução, encontrei meu propósito.”

O próximo capítulo de quem nunca parou de recomeçar

Suzi chegou em 2026 diferente. Mais silenciosa, mais estratégica, mais conectada com o que realmente importa. Na campanha de Dia das Mães deste ano, decidiu não investir em tráfego pago. Queria testar a força da sua audiência orgânica, a comunidade que construiu ao longo de mais de uma década de verdade, presença e acolhimento. E elas vieram.

Seus planos para o futuro são tão claros quanto a luz dos ensaios que produz: ampliar a Campanha Identidade, aprofundar o trabalho de reconexão feminina e mostrar que é possível construir algo grandioso sem perder a essência. Para jovens empreendedoras que sonham em trilhar um caminho parecido com o dela, o conselho que ela deixa é direto: o diferencial nunca será a técnica. Será a forma como você faz as pessoas se sentirem.

Quinze anos atrás, uma câmera ficou guardada por quase um ano porque ela ainda não sabia o que fazer com ela. Hoje, cada ensaio é uma declaração de que a imagem não registra apenas o que é visível. Registra o que a mulher sempre foi, mas ainda não havia tido permissão de ver.

“Se uma mulher se sente bonita, ela resolve qualquer guerra.”

Um legado que devolve às mulheres o direito de existir inteiras

Suzi Pires não construiu apenas um estúdio de fotografia. Construiu um espaço onde mulheres se veem com mais carinho, reconhecem sua beleza e registram uma fase única de suas vidas. Uma trajetória que começou numa infância simples em Santo André, passou por quebras, recomeços e um deserto emocional profundo, e se transformou em missão: mostrar para cada mulher quem ela realmente é.

A Campanha Identidade é uma extensão natural dessa trajetória. Mais do que fotografar, a proposta é criar um espaço onde cada mulher possa se enxergar com mais gentileza, presença e autenticidade. Em um mundo de filtros e comparações, a campanha convida a valorizar a própria história e a beleza que existe em cada fase da vida.

Hoje, cada clique carrega o peso de uma história construída ensaio a ensaio. Quando uma cliente sai do estúdio sabendo que é bonita, ela enfrenta qualquer guerra. E é exatamente isso que Suzi Pires leva consigo todos os dias: a convicção de que aquele clique tem o poder de mudar algo dentro de quem está do outro lado da lente.

@suzipiresfotografiacriativa