A construção de uma marca que nasceu da autenticidade

Da infância em Osasco ao reconhecimento nacional no universo da beleza, Victoria Rezende construiu uma trajetória em que estudo, empreendedorismo e autenticidade caminham lado a lado. À frente do Studio Victoria Rezende, tornou-se referência em coloração, conquistou reconhecimento da L’Oréal e inspira milhares de mulheres ao mostrar que o verdadeiro sucesso nasce da coragem de ser quem se é.

Quem conhece Victoria Rezende hoje encontra uma profissional segura, dona de uma agenda disputada e de uma marca que leva seu próprio nome, reconhecida pela excelência técnica e pelo cuidado com que trata cada cliente. Mas essa história começou muito antes dos prêmios e do reconhecimento nacional. Começou quando uma adolescente decidiu que não permitiria que o medo definisse o seu futuro.

Entre esses dois momentos existem milhares de horas de estudo, uma mudança para outro continente, uma pandemia e uma certeza que nunca mudou: ser verdadeira consigo mesma nunca foi uma estratégia de marketing, mas uma forma de viver. Hoje, Victoria percebe que construiu muito mais do que um salão de beleza. Construiu uma marca capaz de transformar cabelos, fortalecer a autoestima de suas clientes e inspirar outras pessoas a acreditarem na força da própria essência.

O apoio que moldou uma trajetória

Victoria Rezende nasceu em Osasco, em 1990, filha de um serralheiro e de uma diarista. A família nunca mediu esforços para investir em sua educação. Aos 10 anos, iniciou um curso de inglês que, anos depois, se tornaria um dos maiores diferenciais de sua carreira. Aos 15, começou sua transição de gênero.

Em vez do abandono que ainda marca a realidade de muitas pessoas trans, encontrou dentro de casa sua maior fortaleza. Os pais compreenderam aquele momento, permaneceram ao seu lado e reforçaram um ensinamento que carregaria para sempre: o conhecimento seria o patrimônio mais importante que poderiam lhe oferecer. Na escola, também encontrou respeito e acolhimento.

Apaixonada por literatura e idiomas, Victoria ingressou no curso de Letras com o sonho de se tornar professora. A vida, porém, preparava outro destino.

“Emocionalmente, era tudo muito novo. Então era o novo, era o apoio dos meus pais, e eu sabendo quem eu era. Na escola, eu não sofri preconceito, porque eu sempre fui uma pessoa muito carismática, me juntava com muitas pessoas.”

A experiência que mudou tudo

A grande virada aconteceu quando decidiu morar em Roma. Durante quatro anos na Itália, teve o primeiro contato com o mercado da beleza e passou a enxergar naquele universo muito mais do que estética. Descobriu uma forma de expressar identidade, autoestima e individualidade.

A experiência também trouxe um amadurecimento profundo. Morar sozinha exigiu independência e coragem, mas a liberdade revelou seu lado silencioso. A saudade dos pais evoluiu para um quadro de tristeza profunda e, ao reconhecer que aquele sentimento vinha da distância da família, decidiu voltar ao Brasil. Hoje, enxerga esse período como um divisor de águas. A Itália lhe apresentou uma profissão e também ensinou a importância do equilíbrio emocional.

De volta ao país, ingressou no Instituto L’Oréal. Foi ali que descobriu a paixão pelas cores e pela capacidade de transformar não apenas cabelos, mas a forma como uma mulher se enxerga diante do espelho. Mais do que uma técnica, havia encontrado sua missão.

“Foi desafiador morar sozinha na Itália porque eu sempre fui muito apegada aos meus pais. E minha mãe é aquela mãe que faz tudo por mim. Mas eu considero que pelo menos eu consegui ressignificar o que é solitude e o que é solidão.”

Da cozinha de casa nasceu uma marca

No Instituto L’Oréal, Victoria mergulhou no universo da coloração profissional e descobriu que a beleza exigia estudo constante e sensibilidade para compreender que cada mulher carregava uma história diferente. Entrou como assistente na rede de salões Thelma e Louize, absorvendo técnicas e observando a gestão do negócio, até que a confiança conquistada com as clientes resultou na promoção para cabeleireira. Foi ali também que aprendeu sobre metas, gestão e ticket médio, conhecimentos que mais tarde seriam fundamentais para construir sua própria empresa.

Então veio a pandemia. Enquanto muitos enxergavam apenas insegurança, Victoria decidiu agir. Transformou a cozinha de casa em um pequeno espaço de atendimento, com uma cadeira, um espelho e um lavatório móvel. Pouco tempo depois, a proprietária de uma casa vizinha, onde funcionava uma fábrica de doces que havia encerrado as atividades, ofereceu o imóvel para que ela montasse um ateliê. Nascia ali o primeiro Studio Victoria Rezende.

O espaço rapidamente deixou de ser apenas um salão. As clientes voltavam pelo acolhimento, pela honestidade e pela sensação de encontrar, nas redes sociais e no atendimento, exatamente a mesma pessoa.

“Eu não tenho um molde, e não consigo vestir um personagem.”

O sonho ganhou paredes, jardim e endereço próprio

Victoria queria sair do aluguel. Durante anos guardou dinheiro, trabalhando de domingo a domingo e reinvestindo praticamente tudo o que faturava no próprio negócio, até comprar um terreno com duas casas. Uma delas se transformaria no salão que sempre imaginou.

Vieram as reformas, a instalação elétrica, os jardins e inúmeros desafios que exigiam novos investimentos. Ainda assim, o ritmo de trabalho nunca diminuiu.

Nos dias em que o movimento era menor, reunia a equipe, pegava panfletos e ia às ruas apresentar o salão para quem ainda não o conhecia. Esperar oportunidades surgirem nunca fez parte da sua personalidade. Essa postura se tornou um dos pilares da empresa, construída sobre valores como acolhimento, excelência, respeito, inclusão e gratidão.

“Ficar parada esperando as coisas acontecerem nunca fez parte daquilo que eu sou.”

Quando o reconhecimento deixou de ser apenas técnico

Enquanto reformava o salão e buscava novas clientes, Victoria continuava estudando. O aprofundamento constante em coloração profissional a credenciou para uma sequência de reconhecimentos. Em 2019, recebeu o troféu de colorista destaque no projeto Star L’Oréal Pro. Vieram outras certificações e, mais recentemente, o reconhecimento como Colour Specialist. Em 2026, ainda foi finalista para integrar o grupo de artistas da L’Oréal Professionnel.

Um reconhecimento igualmente importante surgiu de um investimento feito ainda na infância. Graças à fluência em inglês, italiano e espanhol, passou a atender clientes de diferentes nacionalidades. Aeromoças da Lufthansa começaram a indicá-la para colegas e, aos poucos, mulheres de diversos países passaram a procurá-la sempre que viajavam ao Brasil.

“Atualmente em L’Oréal, todos que somos Colour Specialist temos um desenvolvimento padronizado pela própria marca, nos trazendo cada vez mais para dentro de toda inovação, não só de produtos, mas também do digital.”

Muito além da beleza

Foi pelas redes sociais que Victoria percebeu que sua influência ultrapassava os limites do salão. No início, as mensagens vinham de profissionais interessados nas técnicas que utilizava. Com o tempo, passaram a chegar relatos de mulheres trans que buscavam algo muito maior do que dicas sobre cabelos. Queriam saber como ela havia encontrado coragem para iniciar sua transição, construir uma carreira sólida e ocupar espaços de destaque sem abrir mão da própria identidade.

Foi nesse momento que compreendeu que havia deixado de ser apenas uma colorista. Tornara-se uma referência. Embora afirme nunca ter vivido um episódio marcante de preconceito direto, sabe que sua trajetória ajuda a abrir caminhos para outras mulheres trans que desejam ocupar esses mesmos espaços.

“Me deram voz. E, tendo voz, meu coração fica quentinho porque sei que estou ali por muitas outras.”

A verdadeira transformação acontece nas pessoas

Ao longo da carreira, Victoria colecionou milhares de atendimentos. Existe, porém, uma lembrança que guarda com carinho. Dona Aura, aos 82 anos, tornou-se uma das clientes mais especiais do salão. As filhas contavam que ela fazia questão de assistir aos stories de Victoria todas as manhãs e se preocupava sempre que percebia sua voz mais baixa ou um semblante diferente.

O relato emocionou profundamente a empresária. Naquele momento, percebeu que seu trabalho já não era medido apenas pela qualidade técnica. Havia criado vínculos afetivos e passado a fazer parte da rotina de pessoas que sequer pertenciam à sua família. Hoje, sua equipe é treinada para oferecer o mesmo padrão de acolhimento e excelência.

“A jornada da cliente dentro do meu espaço também é de acolhimento, não só de transformação. Gosto que elas não saiam só mais lindas, como também mais leves.”

Um legado construído todos os dias

Hoje, aos 36 anos, Victoria continua estudando com a mesma dedicação de quem está apenas começando. Soma formações em gestão de salões, empreendedorismo, coloração pessoal e comportamento humano.

No curto prazo, pretende publicar uma autobiografia contando toda a caminhada que a trouxe até aqui. No longo prazo, deseja ampliar sua atuação como consultora de imagem, unindo técnica, comportamento e desenvolvimento pessoal.

“Provavelmente, estarei fazendo consultoria de imagem de uma forma muito experte, formada e preparadíssima para mudar a imagem de uma mulher através de todos os estudos que estou tendo.”

Encerramento

Quando imagina esse futuro, Victoria não fala primeiro sobre expansão ou números. Prefere falar sobre legado. Deseja olhar para trás e perceber que ajudou a abrir portas antes consideradas inalcançáveis, especialmente para mulheres trans que ainda enfrentam inseguranças para ocupar espaços de protagonismo.

A história de Victoria Rezende mostra que nenhuma transformação começa diante do espelho. Ela começa quando alguém decide estudar, trabalhar, acreditar em seus sonhos e permanecer fiel à própria essência. O reconhecimento vem como consequência de uma trajetória construída, todos os dias, com coragem, dedicação e verdade.

@vicktoriarezendeoficial