Médico pediatra, gestor hospitalar e consultor em governança em saúde, Fábio Viana construiu uma trajetória que atravessa a Polícia Militar, a medicina de alta complexidade e a formação de líderes. Hoje, desenvolve o conceito de governança adaptativa, unindo dados, antecipação de cenários e desenvolvimento de pessoas para transformar resultados em saúde.

Antes da crise, existe a leitura
Em ambientes de alta pressão, esperar a crise acontecer custa caro. Fábio Viana aprendeu essa lição muito antes de transformar o aprendizado em método. Aos 45 anos, o médico pediatra, gestor e palestrante vive uma nova fase profissional, voltada à consultoria em governança e à formação de líderes.
Sua trajetória passa pela Polícia Militar da Bahia, pela Medicina, pela emergência pediátrica e por posições de gestão hospitalar. Em diferentes funções, esteve diante de decisões que exigiam rapidez, responsabilidade e capacidade de entender o que acontecia além do problema imediato.
É dessa experiência que surge sua principal marca hoje. Fábio procura identificar sinais, interpretar dados e agir antes que um cenário se transforme em crise. O movimento atual não rompe com sua história profissional. É uma consequência dela.
“Uso a minha capacidade de ler ambientes e prospectar resultados”.

A disciplina começou em casa
Antes de assumir responsabilidades profissionais, Fábio aprendeu a lidar com limites. Nascido em Salvador, em 1981, filho de uma babá e de um porteiro, cresceu com poucos recursos nos fundos da casa do avô. Foi a mãe, Daize, quem se tornou sua principal referência de disciplina, estudo e confiança.
Sem dinheiro para reforço escolar, ele estudava com livros doados pelos professores. Ainda criança, começou a ensinar colegas e passou a receber dinheiro pelas aulas. Chegou a ter dois a quatro alunos por noite e usava a renda para ajudar em casa.
A mãe repetia uma frase antes das provas. Fábio repetia junto, até acreditar que conseguiria. Décadas depois, o princípio continuaria presente nas decisões profissionais, das madrugadas de estudo aos momentos em que precisou recomeçar.
“Eu sei, eu posso, eu vou conseguir”.

Da farda ao jaleco
A disciplina ganhou outro campo de prova quando Fábio ingressou na Polícia Militar da Bahia. Aprovado no concurso, entrou na corporação em 2001 e se formou oficial em 2004. Anos depois, decidiu seguir um sonho antigo: cursar Medicina.
A faculdade começou em 2008, enquanto ele ainda trabalhava na PM. Durante as escalas noturnas, estudava dentro da viatura, com um colega patrulheiro fazendo a segurança do lado de fora para ajudá-lo. Também passou pela área de gestão de ensino da corporação e participou, no Japão, de uma formação de 21 dias em gestão comunitária da segurança pública.
Foi nesse período que outro traço ganhou peso. Na época, prevalecia entre parte da corporação o entendimento de que a dedicação ao serviço policial deveria ser integral e exclusiva, e conciliar a farda com os estudos de Medicina passou a ser visto, por alguns superiores, como um desvio de prioridade, quase como se a Polícia estivesse sendo usada como um trampolim. Fábio enfrentou essa pressão sem abandonar nenhuma das duas frentes, cumpriu integralmente sua carga horária, manteve o desempenho no serviço e seguiu os estudos até se formar médico. A experiência reforçou uma convicção que levaria para a vida profissional: é possível persistir em um objetivo sem descumprir obrigações nem ceder à pressão de quem espera que se escolha apenas um caminho.
“Eu já enxergava ali o que viria depois. Cumprir minhas obrigações na Polícia enquanto me preparava para a Medicina não era conflito de prioridades, era antecipar o profissional que eu precisaria ser.”

Quando a experiência virou método
A formação médica ampliou esse repertório. Depois de concluir a graduação e a residência, Fábio chegou a Brasília em 2017 e seguiu atuando na assistência, principalmente em ambientes de emergência e terapia intensiva. Poucos meses depois, também começou a ocupar funções de gestão hospitalar.
A convivência entre a assistência e a gestão mostrou a ele que uma decisão clínica não existe isoladamente. Segurança do paciente, eficiência, contratos, custos, processos e resultados precisam conversar. Dessa percepção nasceu a proposta de integrar governança clínica e governança operacional e financeira.
O conceito ganhou uma prova prática em um hospital de Brasília onde atuava como gestor. Ao analisar dados de três anos anteriores, Fábio antecipou uma sazonalidade de doenças respiratórias e planejou a ampliação da capacidade da UTI pediátrica. Segundo seu relato, a estratégia gerou R$2,3 milhões em receita adicional em cerca de quatro meses, além de evitar que crianças em situação grave permanecessem à espera de vaga.
“Eu chamo essa forma de trabalhar de governança adaptativa.”

Liderar é preparar o próximo movimento
O resultado mostrou que antecipar cenários não depende apenas de dados. Depende também de quem transforma a informação em decisão. Foi nesse ponto que a gestão passou a levar Fábio para outro campo: a formação de líderes.
Hoje, ele defende que estratégia e comportamento precisam caminhar juntos. Para isso, o líder precisa entender a cultura do ambiente, desenvolver pessoas e criar espaço para que uma equipe reconheça dúvidas e peça ajuda sem transformar vulnerabilidade em fraqueza.
A ideia rompe com uma visão mais informal da liderança. Fábio não vê o líder como alguém que precisa ser amigo da equipe. Seu papel, na visão dele, é construir condições para que as pessoas entreguem aquilo que a estratégia exige.
“Liderança, pra mim, é estratégia”.

O cuidado também deixa marcas
Essa visão sobre pessoas não surgiu apenas no ambiente profissional. Fábio atribui parte importante de sua formação à mãe, Daize, ao tio Lindelson e ao avô Domingos. Foram eles que, segundo ele, ajudaram a sustentar sua trajetória nos períodos mais difíceis, especialmente durante a formação profissional e a faculdade.
A mesma compreensão sobre cuidado aparece hoje na relação com a Medicina e com a Pediatria. Em 27 de agosto de 2026, Fábio foi indicado pela Sociedade de Pediatria do Distrito Federal para receber uma Moção de Louvor durante a Sessão Solene em Homenagem à Semana da Primeira Infância, promovida pela Câmara Legislativa do Distrito Federal. A homenagem reconhece sua contribuição para a promoção, proteção e cuidado de crianças de zero a seis anos.
O reconhecimento acompanha uma fase em que sua carreira amplia o campo de atuação. Em 3 de abril de 2027, em Gramado, no Rio Grande do Sul, Fábio também será homenageado pela Câmara Brasileira de Cultura com o Mérito Acadêmico e Profissional, em cerimônia no Hotel Serra Azul. A honraria reconhece sua trajetória, atuação e contribuição profissional. A indicação foi aprovada pela câmara técnica da instituição, e a categoria definitiva ainda está em definição.
As duas homenagens aparecem em um momento de transição. Fábio segue ligado à assistência, mas passa a dedicar cada vez mais espaço à formação de líderes, à consultoria e à transformação da gestão em saúde. O reconhecimento, nesse contexto, amplia o alcance de uma carreira construída entre o cuidado direto e a preparação de quem toma decisões.
“Minha mãe sempre dizia: ao sair dos lugares, você tem que deixar as portas sempre abertas”.

Agora, o desafio é multiplicar
A nova fase de Fábio não significa abandonar a Medicina. O movimento é gradual. À medida que a consultoria cresce, ele pretende reduzir a carga de plantões, mantendo a atuação assistencial e ampliando o trabalho com educação executiva, governança e formação de líderes.
Hoje, estrutura projetos de consultoria em saúde, mantém atuação como plantonista em sala vermelha e prepara novas frentes de palestras e mentorias. Também trabalha em um livro sobre governança adaptativa e desenvolve uma nova reflexão sobre os desafios de liderar a geração Z, que deverá ocupar posições de comando nos próximos anos.
Para ele, esse movimento não representa apenas uma mudança de função. É uma forma de transformar experiências acumuladas em conhecimento que possa ser aplicado por outras pessoas. A trajetória que começou com o desejo de aprender e ensinar agora chega a um ponto em que formar quem decide passa a ser parte do próprio trabalho.
“Sucesso pra mim é fazer uma entrega alinhada ao propósito e honrar a confiança que me foi depositada”.

Legado em movimento
Fábio Viana começou ensinando colegas à noite para ajudar a mãe. Depois, estudou para entrar na Polícia Militar, levou os livros para dentro da viatura, tornou-se médico e passou a ocupar posições de gestão em ambientes onde decisões têm impacto direto sobre as pessoas.
Agora, transforma esse repertório em uma proposta que vai além da própria carreira: preparar líderes para enxergar o que ainda não aconteceu, decidir melhor diante da pressão e construir organizações capazes de se adaptar.
O fio que atravessa essa história não está em um cargo específico. Está na disposição de aprender, assumir responsabilidade e fazer o conhecimento circular. O menino que repetia que podia conseguir hoje tenta ensinar outras pessoas a fazer o mesmo, mas com uma diferença essencial: não apenas superar o próximo desafio, e sim estar preparado para reconhecê-lo antes que ele chegue.

Instagram: @fabioviana_educacaocorporativa