Filha, irmã, mãe atípica, empreendedora. A trajetória de Liliane Fernandes Moreira mostra que algumas empresas não nascem de uma oportunidade de mercado, mas de uma missão de vida. À frente da Vínculo Atípico, Caminho Atípico e Atypia, ela lidera um ecossistema de inclusão que conecta famílias, empresas e tecnologia para reduzir barreiras e transformar a inclusão em uma prática cotidiana. Hoje, suas soluções já alcançam mais de 600 municípios brasileiros e seguem em um novo ciclo de expansão.

Quando a vida ensina antes do empreendedorismo

A trajetória de Liliane Fernandes começou muito antes da abertura do primeiro CNPJ. Foi construída entre hospitais, desafios familiares, grandes organizações e a certeza de que nenhuma pessoa deveria enfrentar sozinha as barreiras da inclusão.

Natural de Campo Belo, no Sul de Minas Gerais, cresceu em uma família simples. Filha de um frentista e de uma costureira, recebeu dos pais valores que se tornaram o alicerce de toda a sua vida: honestidade, respeito, responsabilidade e compromisso com as pessoas. Ainda criança, costumava dizer que conheceria o mundo e ajudaria pessoas. O pai, com a sabedoria de quem nasceu na zona rural, respondia que era importante sonhar de acordo com a realidade. Liliane, porém, escolheu acreditar que a realidade também podia ser transformada.

Aos sete anos, viu a irmã desenvolver epilepsia, condição que acompanharia a família por décadas e despertaria nela um olhar sensível para as barreiras enfrentadas por pessoas com condições de saúde.

“Eu era uma criança, via o sofrimento da minha mãe e da minha irmã, mas não podia fazer nada.”

Da menina do interior à executiva

Aos 18 anos, Liliane mudou-se para São Paulo, onde passou a morar com a irmã mais velha, Lilian, que lhe deu apoio no início de sua caminhada na cidade grande. Chegou com poucos recursos, muitos sonhos e uma enorme disposição para construir a própria história. Em 2000, ingressou na TAM, atual LATAM Airlines, como recepcionista de aeroporto, sem nunca ter entrado em uma aeronave. Poucos meses depois, realizou sua primeira viagem internacional, desembarcando em Buenos Aires. Durante a viagem, fez questão de ligar para o pai para compartilhar a realização daquele sonho que, ainda menina, dizia que um dia conquistaria: conhecer o mundo. Hoje, já conhece mais de 20 países e mantém vivo o mesmo desejo daquela menina de Campo Belo: transformar cada experiência em conhecimento capaz de gerar impacto na vida das pessoas.

Durante 12 anos na LATAM Airlines, Liliane construiu uma trajetória marcada pelo crescimento profissional, passando atuar na estrutura da Vice-presidência Comercial, onde atuou como secretária do então vice-presidente Paulo Castello Branco. Nesse período, Liliane foi homenageada com a Medalha Mérito Santos-Dumont, em reconhecimento à excelência de sua atuação profissional.

Um ano após a saída de Paulo Castello Branco da companhia, Liliane foi convidada por ele para integrar a Presidência do Grupo Águia, onde passou a atuar como assessora. Permaneceu na organização até 2025, consolidando uma trajetória de 13 anos, durante a qual acompanhou de perto decisões estratégicas, processos de expansão e a gestão de grandes operações.

“Eu fui aprendendo a ser profissional.”

Fragilidade e propósito

Durante anos, Liliane acompanhou o pai em inúmeras internações hospitalares, em decorrência de uma mielite transversa desenvolvida após uma infecção pelo vírus herpes e diagnosticada tardiamente. Naqueles corredores, observava não apenas a fragilidade da doença, mas também a realidade de famílias que enfrentavam o medo, a insegurança e, muitas vezes, a falta de acolhimento. Em determinado momento, a doença o impediu de andar. Um ano depois, porém, a família viveu um dos momentos mais marcantes de sua trajetória: recuperado, o pai entrou caminhando ao lado de Liliane no altar, no dia de seu casamento, transformando aquela cena em um símbolo de superação e esperança. Neste ano, completaram-se 10 anos desde que seu pai partiu para o descanso eterno nos braços de Deus. A saudade permanece, mas Liliane acredita que o amor não conhece despedidas. Ela sente a presença dele nas lembranças, nos ensinamentos, nas decisões que toma e em cada passo de sua caminhada. Seu pai continua vivo em seu coração, inspirando sua missão de cuidar de pessoas, transformar vidas e levar esperança a tantas famílias.

Anos mais tarde, já como mãe, Liliane voltou a vivenciar a rotina dos hospitais ao lado da filha, Letícia. Ainda bebê, Letícia enfrentou inúmeras internações por problemas respiratórios, fazendo com que a família atravessasse momentos de medo, insegurança e busca constante por respostas.

Com o início da vida escolar, surgiram novos desafios. A partir dos sete anos, Letícia recebeu os diagnósticos de TDAH, TAG e, posteriormente, TPAC. Ao acompanhar de perto suas dificuldades e necessidades, Liliane percebeu que muitas escolas ainda não estão preparadas para compreender e acolher adequadamente as diferentes formas de aprender.

Mais do que acompanhar a própria filha, Liliane passou a reconhecer, na trajetória de outras famílias, uma realidade que se repetia: dúvidas sem respostas, falta de informação, julgamentos e uma profunda sensação de solidão. Foi então que compreendeu que, muitas vezes, a maior dificuldade não estava na condição de saúde ou na neurodivergência, mas nas barreiras criadas pela sociedade e na ausência de uma rede de apoio verdadeiramente preparada para acolher essas famílias.

Essa percepção transformou sua maneira de enxergar a própria história. A dor deixou de ser apenas uma experiência pessoal e passou a revelar uma causa. Liliane entendeu que todas as crianças podem aprender e desenvolver seu potencial quando recebem estímulos adequados, estratégias individualizadas, profissionais capacitados e ambientes preparados para respeitar seu ritmo e suas particularidades. Cada desafio vivido ao lado da filha tornou-se aprendizado; cada aprendizado, uma responsabilidade; e essa responsabilidade, um propósito.

Mesmo ocupando posições estratégicas em grandes empresas, Liliane sempre acreditou que aprender é um processo contínuo e que o conhecimento só alcança seu verdadeiro sentido quando se transforma em ação. Movida pelo desejo de compreender mais profundamente o comportamento humano e contribuir para a construção de uma sociedade mais inclusiva, iniciou, em 2022, sua segunda graduação, em Psicologia, com conclusão para dezembro de 2026. A nova formação soma-se à graduação em Publicidade, às pós-graduações em Negócios Internacionais e Políticas Públicas e às especializações em Neurociência, Psicopatologia e Desenvolvimento Humano.

A partir dessa escolha, sua experiência como mãe deixou de representar apenas uma busca por respostas para a própria filha. Transformou-se em uma missão profissional e social: ampliar o acesso à informação, fortalecer famílias, qualificar o acolhimento e contribuir para que crianças neurodivergentes sejam reconhecidas não por suas limitações, mas por suas possibilidades. O que começou como uma jornada marcada pelo medo e pela incerteza tornou-se uma trajetória de conhecimento, defesa de direitos e compromisso com uma educação e uma sociedade mais humanas, preparadas e inclusivas.

“Ver meu pai entrar caminhando comigo no altar, depois de tudo o que nossa família viveu, reforçou a minha convicção de que acolhimento, esperança e apoio podem transformar vidas.”

Quando propósito encontrou estratégia

Durante anos, Liliane acreditou que buscava respostas apenas para a própria filha. Mas, ao conversar com outras famílias, percebeu que aquela realidade era compartilhada por milhares de pessoas em todo o Brasil. Ela não queria apenas encontrar respostas. Queria construir caminhos. Assim nasceu a Vínculo Atípico, projeto que ganhou estrutura, tecnologia e capacidade de expansão com a entrada do esposo, Rodrigo Barros, unindo a sensibilidade desenvolvida por Liliane à experiência tecnológica e empresarial dele.

Com o amadurecimento do projeto, veio uma compreensão ainda mais profunda. Não bastava apoiar as famílias. Era preciso também preparar empresas e desenvolver tecnologias capazes de ampliar segurança, autonomia e acessibilidade. Foi dessa visão que nasceram as outras frentes do ecossistema.

“A vontade de empreender não nasceu apenas do desejo de abrir uma empresa. Nasceu da necessidade de resolver um problema que eu conhecia por dentro.”

Vínculo Atípico: a rede de apoio que muitas famílias procuravam

A primeira empresa do ecossistema nasceu de uma inquietação simples. Liliane conhecia essa realidade na prática. Durante anos, enfrentou dúvidas, buscou especialistas, estudou diferentes condições do neurodesenvolvimento e percebeu que muitas famílias viviam exatamente os mesmos desafios. Foi dessa experiência que surgiu a ideia de reunir, em um único lugar, aquilo que normalmente levaria anos para descobrir.

Mais do que uma plataforma digital, a Vínculo Atípico é uma rede de apoio criada para acompanhar famílias em diferentes fases da jornada. Reúne profissionais especializados, conteúdos baseados em evidências científicas, mentorias, diário de bem-estar, mapeamento de emoções, parceiros de produtos e serviços e uma comunidade nacional de famílias atípicas, além de descontos exclusivos na tecnologia da Atypia. Toda a jornada acontece dentro da própria plataforma, desde a escolha do profissional até as consultas, os pagamentos e o acompanhamento. Um modelo que também fortalece os profissionais parceiros, oferecendo uma estrutura tecnológica segura para os atendimentos.

A plataforma Vínculo Atípico reúne, em um único ambiente digital, famílias, profissionais especializados, conteúdos, mentorias e recursos de acompanhamento. O aplicativo Vínculo Atípico Familiar já está disponível para download na Google Play e na Apple Store, e o cadastro também pode ser realizado pelo site vinculoatipico.com.br. O lançamento da plataforma acontece no dia 01 de setembro, em São Paulo, na capital.

“Por que tantas famílias precisam percorrer um caminho tão difícil para encontrar informação, profissionais e acolhimento?”

Caminho Atípico: quando a inclusão chega às organizações

Enquanto a Vínculo Atípico nasceu para apoiar famílias, Liliane e Rodrigo perceberam que, mesmo quando pessoas neurodivergentes ou com deficiência recebiam acompanhamento adequado, continuavam encontrando barreiras em escolas, empresas, hospitais, aeroportos e espaços de atendimento. A inclusão precisava ultrapassar os limites do ambiente familiar e chegar às organizações. Foi assim que nasceu a Caminho Atípico.

A empresa prepara instituições para receber pessoas com diferentes perfis, promovendo uma cultura organizacional baseada no respeito, na acessibilidade e na diversidade humana. O trabalho da Caminho Atípico vai além dos treinamentos. Envolve diagnóstico organizacional, consultorias, auditorias de acessibilidade, protocolos inclusivos e certificações. Já atendeu diversas empresas, que compreenderam que a inclusão deixou de ser apenas uma pauta social para se tornar também uma estratégia de inovação e reputação. Uma organização verdadeiramente inclusiva não é aquela que apenas recebe pessoas diferentes, mas a que está preparada para valorizá-las.

“Nós treinamos e certificamos o ambiente para que ele se torne sensorialmente inclusivo.”

Atypia: tecnologia que protege, auxilia em emergências e promove autonomia

O terceiro pilar do ecossistema surgiu de uma necessidade prática. Em situações de crise, emergência, desorientação ou dificuldade de comunicação, muitas pessoas podem não conseguir informar dados essenciais sobre sua saúde, suas necessidades ou seus contatos de emergência. Famílias também convivem com o receio de um filho se perder ou enfrentar uma crise em público sem que as informações necessárias cheguem rapidamente a quem possa ajudar. Foi para responder a essas situações que nasceu a Atypia.

A empresa desenvolveu uma tecnologia assistiva integrada a pulseiras, cartões e cordões de identificação com NFC e QR Code. Ao aproximar um celular ou escanear o código, é possível acessar rapidamente as informações previamente cadastradas e autorizadas pelo usuário. A tecnologia funciona sem aplicativo, bateria ou mensalidade.

O perfil pode reunir contatos de emergência, dados de saúde, diagnósticos, medicações em uso, alergias, plano de saúde, preferências sensoriais e orientações sobre como agir em situações de crise. Também permite armazenar até dez laudos, disponibilizar informações nos idiomas utilizados pelo indivíduo, incluir áudios para pessoas com deficiência visual ou dificuldades de comunicação e registrar todas as observações necessárias sobre o indivíduo.

Essas observações podem apresentar particularidades relacionadas à comunicação, ao comportamento, à rotina, à mobilidade, à alimentação, às sensibilidades sensoriais e às formas mais adequadas de oferecer apoio. A tecnologia também permite disponibilizar uma carta de apresentação em PDF, reunindo informações importantes para facilitar a compreensão das necessidades da pessoa em escolas, hospitais, viagens, atendimentos e outros ambientes.

Um de seus principais diferenciais é o Scan Security. Sempre que a pulseira ou o cartão é escaneado, a localização daquele acesso é registrada e enviada imediatamente, em tempo real, para o e-mail e o WhatsApp dos contatos cadastrados. Assim, a família ou o responsável recebe a informação de onde o dispositivo foi acessado, recurso especialmente importante em situações de desaparecimento, desorientação ou emergência.

A tecnologia também oferece um botão de emergência, que facilita o acionamento rápido dos contatos cadastrados quando a pessoa precisa de ajuda. Não se trata de um rastreamento contínuo por GPS: a localização é gerada no momento em que o dispositivo é escaneado ou o recurso de emergência é acionado.

A solução foi desenvolvida para acompanhar pessoas em diferentes fases da vida, podendo ser utilizada por crianças, adolescentes, adultos e idosos. Também pode auxiliar escolas, hospitais, hotéis, aeroportos, empresas e outros ambientes públicos ou privados a oferecerem um atendimento mais rápido, seguro, acessível e adequado às necessidades de cada pessoa.

Hoje, a Atypia já está presente em mais de 600 municípios brasileiros, promovendo mais segurança, autonomia e tranquilidade para pessoas neurodivergentes, pessoas com deficiência, idosos e indivíduos com condições de saúde que exijam atenção específica. Mais do que dispositivos de identificação, a Atypia cria uma conexão rápida entre quem precisa de apoio e quem pode ajudar.

A Atypia abraça mais de 200 condições de saúde, incluindo doenças físicas e motoras, transtornos, deficiências, síndromes raras e doenças invisíveis. Cada cor da tecnologia representa diferentes condições de saúde, tornando visíveis realidades diversas e promovendo mais compreensão, respeito e acolhimento.

“A tecnologia é fácil de adquirir, é acessível e muito útil, porque ainda há muita gente que não sabe o que isso significa.”

Escuta Atípica: o quarto pilar do Ecossistema da Inclusão

O Ecossistema da Inclusão também prepara seu quarto pilar: a Escuta Atípica, uma clínica e instituto em construção na cidade de São Paulo.

O novo projeto levará para o ambiente presencial o propósito de acolhimento e inclusão que conecta todas as iniciativas do ecossistema. Ainda em fase de desenvolvimento, a Escuta Atípica nasce com a missão de ampliar o cuidado e se tornar uma referência nacional.

Os detalhes sobre sua estrutura, seus serviços e seu funcionamento serão apresentados oficialmente em um novo momento.

Liderar um modelo integrado

O verdadeiro diferencial do ecossistema está na forma como seus quatro pilares se conectam, rompendo com a lógica de soluções isoladas e propondo a inclusão como um processo contínuo, capaz de construir ambientes onde todas as pessoas possam participar plenamente da sociedade.

“Quando famílias, empresas e tecnologia caminham juntas, a inclusão deixa de ser um discurso e passa a transformar vidas.”

Para Liliane, liderança não significa ocupar posições de destaque, mas criar oportunidades para que outras pessoas também cresçam. Embora o trabalho já tenha alcançado centenas de municípios brasileiros, ela acredita que esse é apenas o começo. Entre os projetos em desenvolvimento estão a ampliação nacional das soluções da Atypia, a expansão das consultorias da Caminho Atípico e novos modelos de capacitação para empresas e instituições, sempre com a mesma premissa: a inovação só faz sentido quando melhora a vida das pessoas.

No dia 2 de setembro, um dia após o lançamento oficial da Vínculo Atípico, Liliane será homenageada na Câmara Municipal de São Paulo por sua atuação no marketing e pelo impacto de sua comunicação nas redes sociais. A iniciativa é da vereadora Edir Sales, em parceria com a EBEM — Escola Brasileira de Empreendedorismo Feminino.

Em apenas um ano e dois meses, Liliane se aproxima de 46 mil seguidores, em uma trajetória construída de forma orgânica, com verdade, constância e propósito. Mais do que números, seu trabalho se tornou uma voz para milhares de famílias, promovendo informação, conscientização e acolhimento sobre neurodivergência, saúde mental, educação, inclusão e políticas públicas. “Receber esse convite foi uma surpresa muito especial. Mais do que o reconhecimento, emociona-me saber que minha voz está alcançando pessoas e ajudando outras famílias a se sentirem menos sozinhas.”

Apesar da intensa rotina, Liliane nunca perdeu de vista aquilo que considera seu maior patrimônio: a família. Foi nela que nasceram seus valores e que descobriu o propósito que transformaria sua vida. Sua filha Letícia continua sendo uma de suas maiores inspirações e, ao lado do esposo, Rodrigo Barros, segue construindo um sonho que ultrapassa os limites do empreendedorismo.

“Tentar ser uma mãe melhor, uma profissional melhor, uma pessoa melhor, a cada dia.”

Uma visão que inspira o futuro

Quando questionada sobre o legado que deseja deixar, Liliane costuma responder que não sonha apenas em ser lembrada pelas empresas que criou, mas pela transformação que ajudou a construir. Sonha com um Brasil onde nenhuma família se sinta sozinha diante de um diagnóstico, onde escolas, empresas e instituições estejam preparadas para acolher as diferenças com naturalidade e onde a tecnologia seja utilizada para ampliar autonomia, segurança e dignidade. Para ela, esse legado não será medido pelo número de atendimentos ou de municípios alcançados, mas pelas vidas transformadas.

“Desejo que a minha história ajude outras famílias a transformarem a dor em propósito.”

@lilianepsi.escuta

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