De Havana ao Brasil, Rafael Arguelles atravessou fronteiras, missões humanitárias e recomeços até transformar a medicina em um propósito que vai além de tratar doenças. Hoje, entre a medicina preventiva, o emagrecimento e a longevidade, o médico prepara uma nova etapa de sua trajetória: ampliar o cuidado e mudar a forma como a saúde é compreendida. 

O menino de Havana

Uma das perguntas que mais ouvimos na infância é o que seremos quando crescer. Rafael Arguelles já tinha essa resposta aos cinco anos: seria médico.  Nascido e criado em Havana, Rafael cresceu em uma família sem tradição na medicina. O pai, porém, acompanhava de perto sua dedicação aos estudos e reforçava desde cedo valores que permaneceram presentes em sua formação: disciplina, responsabilidade e compromisso com aquilo em que acreditava.

A convicção resistiu ao tempo. Vieram a faculdade de Medicina e a formação em Cuba. Depois, missões humanitárias, outros países, diferentes sistemas de saúde e recomeços que testariam aquela escolha feita ainda na infância. O que Rafael ainda não sabia era que, para cumprir a promessa daquele menino de cinco anos, precisaria descobrir que cuidar de pessoas também significava aprender a exercer a medicina em contextos muito diferentes.

Os anos passaram, mas a certeza permaneceu intacta. O menino que sonhava em cuidar de pessoas ainda não imaginava que sua trajetória o levaria muito além das ruas de Havana e atravessaria fronteiras em busca do mesmo propósito que carregava desde a infância.

“Eu mantive esse propósito desde os cinco anos. Tanto que virei médico.”

O primeiro passo para o mundo

A dedicação aos estudos levou Rafael à faculdade de Medicina, onde rapidamente se destacou entre os melhores alunos da turma. Aos poucos, a infância vivida em Havana dava lugar a uma juventude marcada pela curiosidade e pela vontade de descobrir o que existia além das fronteiras cubanas.

Ainda durante o internato, surgiu a oportunidade de participar de uma missão humanitária na Guatemala, país que enfrentava as consequências de um furacão. Pela primeira vez, Rafael deixaria a família, os amigos e a cidade onde havia crescido para viver uma realidade completamente desconhecida.

O que parecia ser apenas uma experiência acadêmica acabaria se transformando em um divisor de águas. Sem saber, o jovem que embarcava para a Guatemala estava prestes a viver uma das experiências mais marcantes da sua vida.

“Eu sempre gostei de desafios e queria conhecer outras realidades.”

A missão humanitária na Guatemala

Aos 24 anos, Rafael desembarcou em uma aldeia indígena na Guatemala sem imaginar que aquela experiência mudaria para sempre sua trajetória. Acostumado ao movimento de Havana, encontrou uma realidade completamente diferente: dormia na casa de desconhecidos, tomava banho ao ar livre e convivia diariamente com pessoas que falavam uma língua que ele sequer compreendia.

A distância da família transformou as noites em um dos momentos mais difíceis daquela jornada. Para conseguir falar com os pais, precisava caminhar por longos trechos até encontrar sinal de telefone. A saudade de casa e a adaptação a uma realidade completamente diferente fizeram daquele período um dos mais desafiadores de sua vida.

Com o passar das semanas, a sensação de isolamento deu lugar ao aprendizado. Entre os atendimentos médicos e as aulas de inglês que passou a oferecer na igreja da comunidade, Rafael descobriu, na prática, que a medicina exigia muito mais do que conhecimento técnico. Aquela experiência, vivida longe de casa, mudaria para sempre sua visão sobre a profissão.

“Eu nunca tinha saído de casa e, de repente, estava sozinho em outro país.”

Médico emergencista na Venezuela

Depois da Guatemala, Rafael passou quatro anos trabalhando como médico intensivista na Venezuela. Os plantões eram exaustivos e a rotina era marcada pela chegada constante de vítimas de tiros, facadas, infartos e acidentes graves.

Em meio à pressão das emergências, conviveu diariamente com situações limite. Em um dos episódios mais marcantes da carreira, precisou lidar com um homem armado que tentava invadir o hospital para matar outro paciente. Experiências como essa fizeram com que encarasse, de perto, a fragilidade da vida e o peso da responsabilidade que carregava.

A convivência diária com situações extremas ampliou sua visão sobre a medicina e despertou o interesse por áreas ligadas à prevenção, à longevidade e à qualidade de vida. Anos depois, já no Brasil, essa transformação influenciaria os rumos da sua carreira.

“Chegou uma hora em que eu senti que estava faltando alguma coisa.”

O recomeço no Brasil

Em 2014, Rafael chegou ao Brasil por meio do programa Mais Médicos. Depois de anos vivendo experiências intensas fora de Cuba, enxergou no país a oportunidade de construir uma nova trajetória e consolidar a carreira que havia começado ainda na infância, em Havana.

Após atuar como clínico geral, decidiu validar o diploma e conquistar a independência profissional. Aprovado no Revalida, voltou para Cuba acreditando que retornaria rapidamente ao Brasil, mas enfrentou meses de incerteza até conseguir embarcar novamente. A experiência reforçou a sensação de que, mais uma vez, precisaria começar do zero.

Quando finalmente retornou ao Brasil, Rafael iniciou um processo de especialização em áreas como longevidade, emagrecimento, reposição hormonal e medicina preventiva. Aos poucos, construiu uma atuação voltada não apenas ao tratamento das doenças, mas também à promoção da saúde e da qualidade de vida.

“Eu não queria passar a vida inteira apenas tratando sintomas.”

A clínica e a família

Abrir a própria clínica significou a realização de um sonho que Rafael carregava desde a infância, mas também o início de uma fase repleta de responsabilidades. Além da medicina, precisou aprender sobre gestão, liderança e empreendedorismo para transformar anos de estudo e experiência em um projeto concreto.

Ao mesmo tempo, começou a trazer para perto a família que havia deixado em Cuba. Primeiro vieram as irmãs. Depois, os pais, que encontraram em Rafael não apenas apoio financeiro, mas também suporte emocional durante o processo de adaptação e construção de uma nova vida no Brasil. Enquanto consolidava a clínica, também vivia a alegria de reconstruir a convivência familiar em um novo país, dividindo-se entre os desafios do empreendedorismo e a felicidade de ter novamente as pessoas que amava por perto.

Décadas depois, o pai que incentivava o filho a estudar em Havana agora via se concretizar o sonho que havia começado dentro de casa e atravessado fronteiras até se transformar em realidade.

“Eu precisava trazê-los para perto de mim. Não tinha coração para deixá-los sozinhos.”

O legado que está começando

Hoje, Rafael concentra sua atuação no tratamento da obesidade, da longevidade e da recomposição corporal. Para ele, emagrecer vai muito além dos números da balança e exige uma compreensão ampla de hábitos, emoções, alimentação, hormônios e qualidade de vida.

Nos próximos anos, pretende ampliar esse trabalho por meio de projetos educacionais, produção de conteúdo e do Master Health Shape Club, levando sua metodologia a um número maior de pessoas e expandindo sua atuação para além dos consultórios.

Décadas depois de dizer, ainda criança, que seria médico, Rafael olha para o futuro com o propósito de ampliar o impacto de seu trabalho. Ao fazer esse balanço, reconhece também as pessoas, os países e até os obstáculos que participaram de sua construção.

“Agradeço a cada pessoa que fez e faz parte da minha trajetória, aos pacientes que confiaram no meu trabalho e aos povos de Brasil, Venezuela e Guatemala pelo acolhimento. Agradeço também a quem colocou obstáculos no meu caminho, porque foram fundamentais para minha autossuperação. E agradeço principalmente a mim, por não ter desistido e por acreditar em mim.”

A frase que resume sua chegada ao Brasil continua funcionando como uma espécie de síntese de tudo o que veio depois:

“Cheguei ao Brasil de malas vazias, mas cheguei com muito propósito, muito comprometimento e muita vontade de fazer acontecer”.

@dr.rafaelarguelles