Os robôs humanoides deixaram os laboratórios e começaram a enfrentar seu principal teste: provar que conseguem gerar valor no chão de fábrica. Empresas de tecnologia e fabricantes vêm colocando essas máquinas em operações industriais e logísticas, mas a adoção ainda ocorre de forma pontual. O desafio agora é transformar demonstrações impressionantes em produtividade consistente.
Na indústria, aparência humana é menos importante que desempenho. Uma máquina precisa executar uma tarefa com segurança, precisão, velocidade e custo competitivo durante jornadas prolongadas. Em julho, por exemplo, um robô testado em uma fábrica chinesa de vestuário alcançou 97% de sucesso ao separar tecidos, mas os próprios pesquisadores apontaram que adaptar os movimentos a materiais diferentes continua sendo um obstáculo.

A adoção em massa de robôs humanoides universais nas fábricas e nas residências não acontecerá no curto ou médio prazo.| Takayuki Ito, presidente da International Federation of Robotics (IFR)
O gargalo está na confiabilidade
A indústria trabalha com margens de erro pequenas. Poeira, reflexos, objetos diferentes e mudanças nas condições de operação podem comprometer a percepção dos robôs. Além disso, jornadas contínuas exigem resistência dos componentes, controle térmico e durabilidade. A ausência de padrões comuns de segurança e integração também pode elevar os custos de implantação.
Por isso, especialistas esperam uma expansão gradual. A International Federation of Robotics avalia que a utilização de robôs humanoides deve avançar mais lentamente que a automação industrial tradicional. Enquanto isso, robôs convencionais continuam ampliando sua presença: 542 mil robôs industriais foram instalados no mundo em 2024, mais que o dobro de dez anos antes.

China lidera a corrida
A disputa pelos robôs humanoides também é uma disputa industrial. A China já concentra cerca de 54% das instalações anuais de robôs industriais do mundo e possui estoque operacional superior a 2 milhões de unidades. O país também transformou a robótica com inteligência artificial em uma prioridade de sua estratégia industrial para 2026–2030.
No segmento humanoide, empresas chinesas também avançam rapidamente. Dados recentes apontam que a China respondeu por mais de 80% das instalações globais de humanoides em 2025, segundo levantamento do MERICS.
A tendência, portanto, não aponta para uma substituição repentina do trabalhador humano. O cenário mais provável é de convivência entre diferentes tipos de automação, com cada tecnologia ocupando as tarefas para as quais apresenta melhor desempenho. Para as empresas, a questão central não será ter um robô humanoide, mas descobrir onde ele realmente consegue produzir mais, com segurança e retorno sobre o investimento.