De uma infância marcada pela curiosidade em Ilhabela a duas décadas de atuação em grandes empresas, Gabriel Pavão construiu uma carreira entre tecnologia, vendas e gestão. Depois de enfrentar perdas que mudaram sua trajetória, voltou aos estudos e hoje trabalha para aproximar inteligência artificial, dados e pessoas na busca por operações comerciais mais previsíveis.

O computador que ensinou a desmontar e remontar
Antes de aprender a transformar tecnologia em negócio, Gabriel Pavão aprendeu a desmontá-la para entender como funcionava. Em Ilhabela, onde passou boa parte da infância e adolescência, uma revista sobre montagem de computadores despertou sua curiosidade. Pouco depois, aos 14 anos, quando ganhou um computador do pai biológico, que havia reaparecido depois de mais de dez anos de ausência, fez o que parecia mais natural para quem queria descobrir o que havia dentro daquela máquina: desmontou tudo. Depois, remontou sozinho.
A curiosidade logo encontrou uma oportunidade. Em uma cidade onde o acesso à tecnologia ainda caminhava mais devagar que nos grandes centros, Gabriel percebeu que havia demanda por pessoas capazes de ensinar o que ele vinha aprendendo por conta própria. Com o avô, criou uma escola de informática ligada à ONG mantida pela família. A mensalidade era acessível e, em pouco tempo, mais de cem alunos passaram pelos cursos. Aos 15 anos, já trabalhava como designer de um jornal local, usando ferramentas como Photoshop e Corel Draw.
Mais do que aprender uma nova tecnologia, Gabriel começava a descobrir uma forma de olhar para o mercado: identificar uma necessidade, buscar conhecimento e transformá-lo em solução. Era um movimento ainda intuitivo, mas que apareceria muitas vezes ao longo de sua trajetória profissional.
“Eu peguei o computador e, no mesmo dia, desmontei inteiro. Quando meu pai viu, perguntou o que eu tinha feito. Eu falei que tinha aprendido e ia montar tudo de novo”.

Da ilha para uma carreira internacional
Aos 18 anos, Gabriel deixou Ilhabela e foi para São Paulo estudar Administração. A formação acadêmica continuou ao longo dos anos, com pós-graduação em Transformação Digital e estudos em negócios e inteligência artificial.
Antes de voltar ao empreendedorismo, construiu cerca de duas décadas de carreira no mundo corporativo. Trabalhou em grandes empresas de tecnologia e engenharia, assumiu posições comerciais e chegou a gerir operações em 11 países. A rotina era intensa, com viagens constantes.
A experiência acumulada abriu espaço para a RhTech, empresa que ganhou visibilidade e chegou a ser destaque em veículos como Exame, Terra e Valor Econômico. Gabriel também desenvolveu um sistema de aproximação entre vagas e candidatos. A expansão planejada para Estados Unidos, Londres e França foi interrompida pela pandemia, e o faturamento caiu 90%.
“Quando eu abri minha empresa, cresci muito no mercado. Foi ali que comecei a ganhar visibilidade também dentro da minha área.”

Quando a previsibilidade virou estratégia
A pandemia não foi o único momento de ruptura. Em 2021, enquanto administrava a RhTech, uma agência de marketing digital e uma rede de barbearias no litoral norte, Gabriel enfrentou uma emergência familiar. Durante a gravidez da então esposa, uma complicação rara colocou a mãe em risco e levou à perda de um dos gêmeos. Para garantir os recursos necessários ao tratamento, ele vendeu as empresas que havia construído.
O período marcou uma mudança profissional. Gabriel voltou a investir na formação acadêmica e aprofundou conhecimentos em RevOps (Revenue Operations), e inteligência artificial. Obteve certificação internacional em RevOps e especializações em processos e análise de dados.
A proposta passou a ser usar tecnologia para entender o que acontece antes de uma venda, e não apenas analisar o resultado depois. É essa lógica que orienta sua atuação em RevOps e creator commerce. Em um case de uma marca brasileira de consumo, a operação saiu de 30 mil para 90 mil creators em três anos, chegou a 11 países e elevou a receita de R$22 milhões para R$600 milhões, segundo dados publicados pelo próprio Gabriel.
Para ele, a inteligência artificial deve apoiar decisões e processos, não apenas automatizar tarefas.
“Uma pessoa que sabe usar inteligência artificial aplicada ao dia a dia do negócio, para aumentar a previsibilidade em vendas: essa é a minha maior especialidade.”

Pessoas antes das ferramentas
Gabriel não vê tecnologia como substituta das pessoas. À frente de uma equipe de 13 a 14 pessoas, diz preferir a orientação à cobrança e transformar correções em aprendizado. As decisões, afirma, devem partir de dados e informações, e não de impressões isoladas.
A experiência profissional também reforçou uma convicção: nenhuma ferramenta resolve sozinha um problema de negócio. É preciso entender o processo e as pessoas antes de escolher a tecnologia. A mesma lógica vale para a inteligência artificial. Seu uso, defende, precisa partir de uma necessidade real, e não da simples vontade de adotar uma novidade.
“Eu sou aquele cara que não toma decisão por achismo, e sim por dados e informações”.

O sucesso que não cabe na conta
Se os dados orientam suas decisões profissionais, a família ocupa o centro de sua definição de sucesso. Gabriel fala dos pequenos momentos com o filho e da importância de estar presente. Em abril deste ano, perdeu o avô, no mesmo dia do aniversário. Criado pelos avós após a separação dos pais, ele considera o avô sua principal referência paterna.
Honestidade, responsabilidade, disposição para ajudar e coragem para assumir os próprios erros estão entre os valores que diz ter recebido dele. O padrasto, economista e casado com sua mãe há três décadas, também é lembrado como uma figura importante em sua formação.
Para Gabriel, dinheiro e patrimônio são consequências do trabalho, não a medida de uma vida bem-sucedida. O que pesa mais são os vínculos e a capacidade de continuar aprendendo.
“Eu acho que sucesso é você ter uma boa base familiar e amigos que estejam do seu lado, mesmo que você fique anos sem ver a pessoa”.

Conhecimento que se multiplica
O ensino entrou cedo na trajetória de Gabriel, quando a escola de informática criada com o avô formou mais de cem alunos em Ilhabela. Hoje, a atividade ganhou outra escala. Ele atua com palestras, consultoria e mentoria e foi convidado para lecionar RevOps e inteligência artificial em um curso de pós-graduação.
Seu objetivo é combater o uso superficial da tecnologia. Para ele, colocar um robô para executar uma tarefa sem entender o processo, os dados e a decisão por trás dela não significa transformação. A IA precisa estar ligada à estratégia e às necessidades do negócio.
É também por isso que Gabriel quer ser reconhecido como um arquiteto de vendas: alguém que pensa a estrutura antes de escolher a ferramenta.
“Quero que o mercado me veja como um arquiteto de vendas usando inteligência artificial”.

Reconstruir também é avançar
Depois das perdas, Gabriel quer voltar a empreender e reconstruir a estrutura empresarial e patrimonial que precisou deixar para trás. Hoje, trabalha na construção de novos negócios, entre eles uma empresa voltada a imersões e mentorias e outra dedicada ao creator commerce.
Também pretende ampliar a aplicação de inteligência artificial nos negócios, desenvolver agentes para diferentes áreas e ensinar empresas a usar essas tecnologias de maneira mais profunda.
Para quem está começando ou atravessando uma fase difícil, seu conselho é baseado na própria experiência: não ignorar a pequena possibilidade de recomeço, mesmo quando o cenário parece perdido.
“Você tem 99% de fracasso, decisões erradas, tudo dando errado, mas tem 1% de virar de novo. Não desista desse 1%.”

Um legado que nasce da reconstrução
A trajetória de Gabriel Pavão é marcada por mudanças, crescimento, perdas e recomeços. O fio que atravessa essas etapas é a disposição para aprender e transformar conhecimento em ação.
Hoje, sua aposta está na inteligência artificial, nos dados e em operações comerciais mais previsíveis. A tecnologia mudou, mas permanece a mesma lógica que o acompanhou desde a adolescência: entender o problema, encontrar uma solução e seguir em frente.
Gabriel não fala de recomeço como ponto de chegada. Para ele, é parte do caminho.

Instagram: @gabrielpavao.co