Em meio a profundas mudanças no sistema tributário brasileiro, Paloma Silva construiu uma trajetória marcada pelo conhecimento técnico e por soluções estratégicas para empresas. A decisão de ressignificar sua relação com o trabalho, motivada pela maternidade, deu origem a uma consultoria baseada em proximidade, ética e propósito. 

Quando sucesso deixou de significar apenas crescer

O Brasil atravessa uma das maiores transformações tributárias das últimas décadas, e um número crescente de empresários enfrenta um desafio além de cumprir obrigações fiscais: entender como cada decisão tributária afeta a competitividade do negócio. Nesse cenário atua Paloma Silva, fundadora da Vertice Compliance, consultoria com dez profissionais em São Paulo, Porto Alegre e Campinas que atendem remotamente empresários endividados.

Seu trabalho vai além do cálculo de impostos: é transformar o tributário em ferramenta de gestão, não em fonte de multas. A decisão de recusar volume em nome de um atendimento artesanal só fez sentido depois de ouvir a filha pedir à avó para ir para “a casa da mamãe”, já dentro de casa.

Era uma vez uma menina que queria mudar de vida 

Paloma cresceu em uma casa com 14 pessoas, entre elas a avó, com quem nunca teve relação de afeto, e um tio alcoólatra. O pai trabalhava como gerente de supermercado para sustentar a família, em meio a limitações financeiras. Ali nasceu a convicção de que o conhecimento seria o único caminho para mudar de vida.

Acompanhando o pai aos fins de semana, descobriu sua primeira inspiração: a contadora do mercado e as calculadoras que imprimiam fitas de papel. Nos passeios pela Avenida Paulista, mulheres de terninho entrando em cafeterias depois do expediente passaram a ocupar seus pensamentos. Decidiu ali fazer parte daquele mundo.

Aos 13 anos, insistiu até conseguir uma vaga de recepcionista em um escritório de contabilidade de um conhecido da igreja da família. O ambiente era hostil: salário baixo, cobranças excessivas e até marmita eram desencorajados. Ainda assim, pedia à contadora que lhe ensinasse mais do que atender telefone, e recebeu o desafio de decorar a tabela de classificação fiscal da época. Dias depois, voltou com tudo memorizado, mesmo com a legislação mudada no caminho — dedicação que a fez começar a aprender, na prática, a profissão de sua carreira.

“Eu precisava criar experiência.”

Cinquenta minutos a pé até o diploma

Depois de dois anos e meio no escritório de contabilidade, Paloma passou por uma empresa de produtos químicos, onde tirou sua primeira certificação em Contabilidade, e por uma construtora, onde conquistou bolsa integral para cursar Direito. A graduação não mudou sua direção: nunca prestou a OAB, e preferiu se especializar em Direito Tributário.

A rotina da faculdade esteve longe de ser confortável: trabalho integral, aulas e longos deslocamentos por São Paulo, caminhando 50 minutos para economizar na condução. Chegou a trocar um emprego de 2 mil reais por um estágio de R$600, exigido pela grade curricular. Com duas amigas, dividia uma coxinha no intervalo e almoçava no Bom Prato para sustentar o sonho da graduação.

Hoje não romantiza aquele período, mas reconhece que ali desenvolveu a disciplina que sustentaria sua carreira, ao longo da qual evoluiu de assistente a gestora em grandes empresas.

“Tudo o que a gente faz com força de vontade e esforço acaba encontrando um caminho. Eu acredito muito nisso.”

Quando uma frase da filha mudou tudo

Profissionalmente, tudo indicava estabilidade. Depois de anos adiando a maternidade pela rotina intensa de trabalho, veio a gravidez de gêmeos: Kauan e Vallentina nasceram em 4 de novembro de 2023. Quatro dias depois, Paloma fazia o fechamento fiscal do mês direto do hospital; em dezembro, já estava de volta ao escritório.

Por um tempo, acreditou que conseguiria equilibrar tudo. Isso mudou no dia em que ouviu Valentina dizer à avó que queria ir para “a casa da mamãe”, mesmo dentro de casa. O episódio tornou impossível ignorar uma pergunta escondida sob anos de rotina: seria possível continuar fazendo o que amava sem abrir mão da convivência com a família?

A resposta começou a surgir em um congresso da área tributária, quando alguém lhe perguntou: se ela gerava resultados expressivos para outras empresas, por que não construiria algo próprio? A provocação rompeu o hábito de se identificar apenas com as organizações pelas quais passara, e a levou a postar os primeiros conteúdos na internet e, pouco depois, aceitar a coautoria de um livro a convite da filha do fundador do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação.

“Não fazia mais sentido trocar tempo de qualidade com eles por algo que eu também poderia construir do meu jeito.”

Uma consultoria que escolheu crescer aso poucos

A Vertice Compliance não nasceu de um plano elaborado, mas da resposta prática a uma mudança de propósito. Em vez de volume, Paloma criou uma consultoria boutique: cada projeto começa com uma imersão na realidade do empresário antes de propor qualquer estratégia.

A convicção é simples: não existem duas empresas iguais, e não deveriam existir soluções padronizadas. Um dos focos é recuperar empresas endividadas, muitas prejudicadas não pela falta de competência do empreendedor, mas por regime tributário equivocado. A equipe trabalha em home office, com coworking em São Paulo, e reúne dez profissionais que já haviam trabalhado com Paloma.

Ter muitos clientes nunca foi um objetivo em si; preservar a qualidade do atendimento sempre foi prioridade, mesmo em um mercado que, segundo ela, privilegia ganhos rápidos.

“Eu não quero que o empresário seja só mais um cliente. O problema dele passa a ser meu também.”

A liderança que nasceu do que ela não quis repetir

As experiências difíceis do início da carreira também definiram a líder que Paloma decidiu se tornar. Depois de gestores que a marcaram negativamente, entre eles o dono do escritório onde começou aos 13 anos, fez um compromisso: jamais reproduzir aquele modelo.

Sua gestão parte de um princípio simples: resultados e relações humanas não competem entre si, convicção que credita a Rejane Silvestre, sua primeira gestora, e a Andréia e Karina, colegas de faculdade com quem dividia a coxinha do intervalo.

Essa percepção ganhou confirmação inesperada ao deixar uma das empresas onde atuou: toda a equipe escreveu cartas de despedida, e em quase todas aparecia o mesmo reconhecimento, o de liderança humanizada. Hoje procura contratar profissionais curiosos e sem ego, pois, para ela, conhecimento deve ser compartilhado.

“Não é porque foi difícil para mim que precisa ser difícil para todo mundo.”

Um casamento que também é sociedade

O marido de Paloma trabalhou anos na mesma empresa que ela e hoje é seu sócio na consultoria. Entre congressos, estudos e dois livros em coautoria, sobra pouco tempo, fase que ela encara como investimento temporário para conquistar, mais adiante, uma rotina equilibrada, com viagens em família, sem celular.

Questionada sobre como resumiria sua trajetória em uma palavra, escolheu “superação”. Conta que, já adulta, enfrentou um período grave de depressão, chegou a pesar 43 quilos e reconhece que quase não resistiu — experiência, hoje superada, que a fez medir conquistas por outro parâmetro: estar presente onde realmente importa.

“O lugar onde estou hoje é a resposta das orações que um dia eu fiz.”

O custo da reforma tributária

Na visão de Paloma, uma empresa pode fracassar não porque o produto é ruim ou o empreendedor incompetente, mas porque foi enquadrada em regime tributário inadequado. Aí está, para ela, o valor da inteligência tributária: fazer o empresário pagar o que deve e preservar recursos para reinvestir no negócio.

Essa visão ganhou ainda mais peso com a Reforma Tributária. Paloma insiste que as mudanças afetam qualquer consumidor, e cita produtos reclassificados para pagar menos imposto, como sabonetes líquidos vendidos como “óleo de banho”, ou cervejas zero álcool, com tributação menor que as convencionais. Falta ao Brasil uma cultura de educação tributária mais próxima das pessoas.

É essa lacuna que a levou a planejar expandir a Vertice Compliance para a educação, com mentorias a empresários e jovens em início de carreira, e a estruturar um escritório físico para que os filhos possam, um dia, tocá-la.

“Atrás de um CNPJ sempre tem uma pessoa.”

Um legado que começa pela presença

Apesar de falar constantemente sobre planejamento, estratégia e crescimento empresarial, quando a conversa se volta para o futuro, os indicadores de Paloma deixam de ser financeiros. Ela não descreve seu maior projeto de vida em faturamento, mas em construir um orfanato e um asilo, e reunir a família em uma viagem longa, sem pressa e sem conta de dias.

Da menina que decorou uma tabela fiscal para não perder o primeiro emprego à mulher que hoje decide como e para quem trabalha, a trajetória de Paloma não é sobre vencer a pobreza da infância, mas sobre reaprender o que vale o tempo trocado por dinheiro, e crescer sem perder a humanidade nem esquecer as origens. Prosperidade, para ela, sempre foi isso: crescer sem deixar de estar presente.