Por anos, Aline Ramos chamou de exigência o que hoje entende como neurodivergência. Advogada, professora formada em História e Geografia, administradora e empresária à frente da A R Consultoria, recebeu o diagnóstico de autismo em janeiro de 2026, depois de procurar avaliação por suspeitar que o marido fosse autista. A descoberta deu origem a dois projetos: o livro Uma Estranha no Ninho, autobiografia que percorre sua história desde a infância até a descoberta tardia do autismo, e o Método NINHO, voltado à inclusão de autistas nas empresas.
O diagnóstico mudou a forma como Aline lê o próprio passado. Organização, perfeccionismo e hiperfoco, que ela atribuía ao jeito de trabalhar, ganharam outro significado. Ela relata episódios de exaustão e burnout e associa esse período a uma trombose cerebral que a levou a ficar cinco dias em coma. Depois da descoberta, passou a falar publicamente sobre o tema e recebeu relatos de mulheres com histórias parecidas.

A história de Aline dialoga com um cenário maior. O Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de TEA no Brasil, 1,2% da população. Desse total, quase 1 milhão eram mulheres. Em estudo brasileiro publicado em 2025 na revista Autism in Adulthood, com 253 adultos autistas, as mulheres receberam o diagnóstico formal, em média, aos 32,1 anos, contra 29,1 anos entre os homens. A pesquisa também apontou maior ocorrência de diagnósticos prévios de outras condições psicológicas e de comportamentos de camuflagem entre mulheres.
A maior transformação não acontece quando descobrimos quem deveríamos ser. Ela acontece quando finalmente entendemos quem sempre fomos. Aline Ramos, em trecho do livro “Uma estranha no Ninho”
Do diagnóstico à transformação
Foi ao entender melhor o próprio diagnóstico que Aline transformou a experiência em projeto. Depois de escrever o livro, criou o Método NINHO, inspirado em um joão-de-barro que avistou em Paraty enquanto escrevia. A proposta é levar informação às empresas para que a inclusão não seja vista apenas como obrigação, mas também como oportunidade de reconhecer habilidades e potencialidades.
O Método NINHO propõe uma abordagem estruturada para ampliar o conhecimento sobre neurodiversidade, favorecer pertencimento e inclusão e ajudar organizações a reconhecer diferentes formas de pensar, trabalhar e contribuir. NINHO reúne cinco pilares: Narrativa, Identidade, Necessidades, Humanização e Orientação para o recomeço. A iniciativa entra agora em uma nova fase, com a estruturação do Método NINHO para aplicação em palestras, workshops e ações de conscientização voltadas ao ambiente profissional.

O livro já foi diagramado, tem 159 páginas e está em fase final de produção, segundo Aline. O lançamento está previsto para o fim de 2026, em Curitiba. Ela também recebeu convites para apresentar a obra em duas igrejas e relata conversas com a OAB do Paraná e do Rio de Janeiro sobre inclusão na advocacia.
O próximo passo é ampliar a discussão além do livro. Aline quer ampliar o debate sobre diagnóstico tardio, inclusão e autonomia, especialmente entre mulheres. Na obra, resume o que motivou o movimento: “Durante muitos anos, pensei que fosse uma estranha no ninho. Hoje entendo que eu nunca fui um erro“.