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Aplicativos ajudam a conhecer pessoas, mas amizade verdadeira ainda depende de tempo
Saúde
31.08.2026

Aplicativos ajudam a conhecer pessoas, mas amizade verdadeira ainda depende de tempo

Plataformas facilitam o primeiro contato entre pessoas com interesses semelhantes, mas pesquisas mostram que vínculos mais profundos exigem convivência, experiências compartilhadas e dedicação.

Na infância e na adolescência, fazer amigos costuma acontecer quase naturalmente. Escola, faculdade, esportes e atividades em grupo criam encontros frequentes. Na vida adulta, porém, trabalho, família e responsabilidades tornam mais difícil encontrar tempo para cultivar novas relações. É nesse espaço que aplicativos voltados à amizade começam a ganhar força.

Plataformas como Bumble BFF, Meetup, Yubo e Trip BFF prometem aproximar pessoas com interesses semelhantes e facilitar o início de novas conexões. Para o psicólogo e pesquisador da Universidade de São Paulo Vitor Muramatsu, elas cumprem uma função importante: abrir a porta para o encontro. A construção do vínculo, porém, continua dependendo de algo menos tecnológico: tempo.

O principal obstáculo da vida adulta não é a ausência de oportunidades para conhecer pessoas, mas a escassez de tempo para cultivar relações. | Vitor Muramatsu, psicólogo e pesquisador da Universidade de São Paulo.

A necessidade de conexão ganha relevância em um cenário de solidão crescente. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de uma em cada seis pessoas no mundo relata sentir solidão. O problema atinge diferentes faixas etárias, mas é especialmente frequente entre adolescentes e jovens.

A tecnologia pode facilitar o primeiro passo, mas não substitui a convivência. A pesquisa do psicólogo Jeffrey Hall, da Universidade do Kansas, mostra uma relação direta entre tempo compartilhado e proximidade. O estudo estima que são necessárias cerca de 50 horas para uma relação avançar de conhecido a amizade casual e aproximadamente 90 horas para chegar à condição de amizade. Vínculos mais próximos exigem mais de 200 horas de convivência.

É justamente por isso que atividades recorrentes continuam sendo um dos caminhos mais eficazes para construir amizades na vida adulta. Grupos de corrida, clubes de leitura, cursos, esportes e trabalhos voluntários criam oportunidades de encontros repetidos, permitindo que confiança e intimidade se desenvolvam gradualmente.

Nesse contexto, os aplicativos funcionam melhor como porta de entrada do que como destino final. Eles podem aproximar pessoas que provavelmente não se encontrariam de outra maneira, mas a amizade precisa ganhar espaço fora da tela.

Para Muramatsu, o princípio vale especialmente depois dos 30 anos: fazer amigos exige disponibilidade e tempo de qualidade. Conversas virtuais podem iniciar uma conexão, mas experiências compartilhadas, presença constante e vulnerabilidade são os elementos que ajudam a transformá-la em vínculo.

A conclusão é quase analógica em uma era digital: nenhuma plataforma consegue acelerar aquilo que a amizade exige por natureza. Para criar relações verdadeiramente próximas, ainda é preciso aparecer, conviver e permanecer.

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