A inflação oficial brasileira ficou negativa em agosto. O IPCA recuou 0,32%, depois de subir 0,07% em julho, e acumulou alta de 3,11% no ano e de 4,22% em 12 meses. É a menor variação mensal desde agosto de 2022 e, à primeira vista, um sinal de alívio para o consumidor.
Só que o número conta apenas uma parte da história. A principal contribuição para a deflação veio da energia elétrica residencial, que caiu 7,63% após a aplicação do Bônus de Itaipu. O item sozinho retirou 0,33 ponto percentual do índice. Sem o efeito da energia, o IPCA teria ficado praticamente estável, em alta de 0,01%, segundo o gerente do IPCA no IBGE, Fernando Gonçalves.
Sem a energia elétrica, o IPCA teria ficado praticamente estável, com avanço de 0,01% na comparação mensal. | Fernando Gonçalves, gerente do IPCA do IBGE

A conta de luz não foi a única responsável pelo alívio. Passagens aéreas caíram 13,17%, combustíveis recuaram 0,91% e a alimentação registrou deflação de 0,34%, favorecida pela safra de produtos como batata, cenoura, cebola e tomate. Ao mesmo tempo, leite longa vida subiu 1,78%, carnes 0,61% e a alimentação fora de casa avançou 0,36%.
Essa diferença ajuda a explicar por que a inflação oficial nem sempre corresponde à sensação de quem vai ao supermercado, paga escola, plano de saúde ou serviços. Cada família possui uma cesta diferente. Dados reunidos na pesquisa mostram que, até julho, famílias de renda baixa acumulavam inflação de 3,60% no ano, pressionadas principalmente por alimentação no domicílio e energia elétrica. Em agosto, 82% das famílias brasileiras continuavam endividadas, segundo a PEIC/CNC.

O cenário também pede cautela para os próximos meses. O Bônus de Itaipu foi um benefício pontual e não recorrente, enquanto os serviços seguem mais resistentes. A análise do FGV IBRE destaca que a inflação está cedendo, mas os serviços subjacentes e os núcleos ainda exigem atenção.
As expectativas do mercado reforçam essa leitura. No Focus de 8 de setembro, a projeção para o IPCA de 2026 caiu marginalmente para 5%, ainda acima do teto de 4,5% da meta, enquanto a Selic era projetada em 13,75% no fim do ano.
O resultado de agosto, portanto, traz uma boa notícia, mas não uma mudança completa de cenário. A inflação pode ter dado um passo para trás no índice, sem que o custo de vida tenha recuado na mesma proporção.